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Movimento Anglicano no Brasil

sábado, 22 de março de 2014

Bispos e novas perspectivas

Novos bispos para um nova realidade 
Rev. Jorge Aquino 

“Pedro tu me amas? Apascenta as minhas ovelhas” 

Todas as dificuldades passadas pela Diocese Anglicana do Recife nos últimos anos nos devem fazer refletir sobre o papel absolutamente único do principal personagem desta história de conflitos, ou seja, do seu bispo. Quando falamos do bispo como do “principal personagem” não queremos desmerecer o papel dos outros atores da história, mas chamar a atenção para o protagonista, para o ator principal, para aquele que tem um papel privilegiado justamente porque tem a autoridade e o dever de dirigir uma Diocese. 
É bom que se diga, logo de início, que estas poucas páginas não pretendem tratar da Diocese do Recife nem da pessoa do bispo Robinson Cavalcanti. Este texto é antes de tudo uma expressão da nossa compreensão sobre como um bispo deveria se comportar nestes novos tempos trazidos pela crise dos paradigmas modernos. Uso a DAR como exemplo introdutório apenas porque parece-nos que ela, mais do que qualquer outra Diocese na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, sofreu muito nos últimos anos com um modelo de episcopado que, não apenas se revelou incapaz de evitar problemas, mas que foi, definitivamente, gerador de dificuldades. 
Nestes dias em que o projeto criado pela modernidade, baseado no domínio da razão, na prevalência do discurso, da retórica, e do logocentrismo e na pretensão fundacionista parece “fazer água”, é necessário pensar mais uma vez em um modelo de igreja e de bispo que se adeqüe a uma nova realidade e a uma nova atmosfera. Pensando nisso, e aproveitando o título de um texto lançado há mais de uma década, gostaria de meditar um pouco sobre o tema: “Novos bispos para uma nova realidade”. 
Para termos novos bispos para uma nova realidade teremos que ser aptos, em primeiro lugar, para buscar a prevalência do serviço sobre o governo. Quando lemos a história da igreja e observamos o papel desenvolvido pelos bispos durante a Idade Média, descobrimos que vem de lá a idéia de que o bispo deve ser visto como a figura de um monarca, ou seja, de um “Príncipe da Igreja”. Esta figura do bispo como um membro da elite da sociedade e como detentor do poder atemporal fui muito importante para o fortalecimento das instituições medievais e, certamente, fez surgir pessoas que desempenharam um papel importantíssimo na Europa. A consequência inevitável deste modelo de episcopado, contudo, foi a crescente dominação exercida pela igreja sobre as camadas mais pobres e carentes da sociedade e a legitimação do autoritarismo praticado pelas monarquias absolutistas. Lamentavelmente, mesmo com o advento da Modernidade e com a eliminação desta característica dominadora que subjazia latente no múnus episcopal, muitos bispos ainda preservam a distância em reação ao seu povo porque se transformaram em membros de um staf de gestores e administradores dos bens e dos recursos da igreja. Ainda que não queiramos eliminar o aspecto administrativo do ofício episcopal, defendemos como algo de suma importância a prevalência do aspecto do serviço sobre o da dominação ou da administração. O bispo deve ser visto hoje, mais do que tudo, como o servo dos servos de Deus. Ser servo dos servos de Deus implica em cansaço, em fadiga, em preocupação com o rebanho, em intercessão pelo povo, etc. Não se trata tanto de dominar, mas de servir. Se trata de assumir o mesmo papel que foi assumido pelo Senhor Jesus que sendo em forma de Deus se humilhou e assumiu a forma de servo e serviu até com a sua própria vida. Antes, portanto, de buscarmos bispos que dominam, entendemos que estes novos tempos devem nos fazer buscar bispos que sirvam e que se doem pelo rebanho. Bispos pastores poderão se cercar de pessoas aptas para administrar ou gerir da melhor forma possível a Igreja. As vidas, contudo, exigem um tipo de atenção que só os servos podem dar. Lembro-me da letra de uma música que fala do grande chamado que recebemos para nos tornar pescadores de homens e que diz a certa altura: “meu cansaço que a outros descanse”. 
Para termos novos bispos para uma nova realidade teremos que ser, em segundo lugar, aptos para buscar a prevalência do pastoral sobre o teológico. A figura episcopado sempre esteve profundamente ligada à do teólogo. A história da Igreja nos mostra exemplos de grandes bispos que foram também grandes teólogos. Quem não gostaria de ter um Irineu de Lion, um Agostinho de Hipona ou um Anselmo de Cantuária como bispo? Que honra termos um Rowan Willians como Arcebispo de Cantuária. Homens assim, com envergadura intelectual, precisam ser valorizados e incentivados ao exercício do episcopado. Contudo, acreditamos que hoje precisamos redescobrir, urgentemente, a figura do pastor no bispo. Quando falamos em “pastor”, estamos falando daquela realidade que nos lembra o próprio Jesus. Ele é o Sumo-Pastor das ovelhas, contudo se serve e se utiliza dos pastores humanos para ministrar o perdão e sarar as feridas. Como pastor o bispo é aquele que deixa as 99 ovelhas no aprisco e vai em busca daquela que está desgarrada. Ele é aquele que enfrenta as intempéries para procurar, buscar e ajudar a que está machucada, ferida ou em perigo. 
Não precisamos de um longo exercício mental para reconhecer que nossos pastores também precisam ser pastoreados. Nossos ministros também precisam de alguém em quem possam confiar, com quem possam contar nos momentos difíceis que advêm sobre todas as pessoas, e também sobre os sacerdotes. Com quem contar? Para quem falar das dores que nos afligem a alma? É neste momento que a figura do bispo, do pastor, se reveste de uma singular significância. Saber que podemos “abrir o coração” e contar com um “Pai em Deus” que nos ouça e nos entenda é absolutamente fundamental para o exercício adequado do sacerdócio. 
Nada temos, conforme falamos, contra um bispo teólogo. Oro para que Deus nos dê muitos ainda. Contudo, em um tempo onde as verdades eram todas dadas e universalmente conhecidas fazia mais sentido se imaginar o bispo assumindo o ofício de “guardião da verdade”, ou seja, como alguém que, seguindo o trilho dos grandes bispos teólogos do passado, dedicavam sua atenção e esforço para preservar a pureza e uma certa interpretação da mensagem do Evangelho. O que vimos com o passar do tempo e com o incremento da modernidade é que alguns deste bispo deixaram de ser simplesmente “guardiões” da verdade para se tornarem em verdadeiros “critérios” da verdade. A verdade, então, deixou de ser algo “fora” deles para ser identificada com algo que está “dentro” deles, ou seja, suas próprias consciências e suas próprias opiniões. Não percebem tais bispos que ao identificarem a verdade com “suas próprias interpretações”, eles rompem com um critério minimamente objetivo e encarnam a plena subjetividade que eles tanto odeiam e perseguem no movimento que chamam de pós-modernidade. Ademais, um bispo pastor pode se cercar de assessores na área da teologia e desempenhar um bom papel enquanto orientador de seu povo nas mais variadas questões. Contudo acreditamos que o contrário não é tão simples. Costuma ser difícil para um bispo-teólogo exercer o pastoreio de suas ovelhas sem assistir o surgimento de lacunas na confiança e no companheirismo. Aqueles que conseguem isso são bem-aventurados. 
A história deu-nos muitos bispos teólogos mas foram os servos e pastores aqueles que mais marcaram as vidas e mesmo a sociedade e o mundo. A Igreja Universal não seria a mesma hoje sem um João XXIII, sem um D. Helder Câmara ou sem um Michael Ramsey. Todos homens inteligentes e bons teólogos, mas sobretudo, homens de piedade, de santidade e de corações abertos para pastorear o rebanho que Deus lhes deu. Que Deus nos dê homens e mulheres assim: sábios, piedosos, pastores e servos, para que o rebanho de Deus cresça na fé, na esperança e no amor. 

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