Translate

Movimento Anglicano no Brasil

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Verbete: Anglicanismo

O Anglicanismo 
Rev. Padre Jorge Aquino[Nota de rodapé] 
 
O anglicanismo é um dos movimentos cristãos mais importantes e significativos da história da Igreja. Sua importância e significação, contudo, não se deve ao seu número de membros ou a sua expansão pelo mundo, mas ao seu caráter singular: ser uma igreja de via média, ou seja, ela é a mais reformada das igrejas católicas e a mais católica das igrejas reformadas. Esta possibilidade de transitar e conviver em ambientes que foram, desde o século XVI, vistos como antagônicos e opostos, fazem da experiência anglicana algo impar e de uma riqueza inominável. 
Origem e desenvolvimento histórico 
Normalmente se ouve dizer que o anglicanismo foi fundado por Henrique VIII. É claro que este rei teve uma grande importância para o que é hoje a Igreja Anglicana. Mas afirmar que ele foi o fundador da igreja é um certo exagero. O que podemos dizer sobre esta igreja é que ela é o resultado da soma de várias ênfases que foram, com o passar dos tempos, se ajuntado e se fundindo, criando um caudaloso rio que procura preservar elementos provenientes das mais variadas épocas e tradições. 
Os primeiros cristãos a chegarem nas ilhas Britânicas ainda não são conhecidos, mas eles certamente chegaram por lá em meados do século II d.C. Sabe-se, diz Aquino (AQUINO, 2000, 15), que “no ano 77, durante uma dura perseguição aos escravos na Gália, um grupo de cristãos fugiu da região onde hoje é a França em direção às praias britânicas”. Sabemos também que entre os inúmeros soldados romanos que guardavam a muralha norte, que separava a Inglaterra de Escócia, havia muitos cristãos. Mas, (ibid, 15) “os únicos dados que dispomos são provenientes das declarações feitas por Tertuliano” dando conta de que, em torno do ano 200 já havia uma considerável comunidade cristã na Bretanha, e “os resultados de pesquisas arqueológicas” revelando a existência de uma capela na região de Kent e uma igreja em Silchester, bem como o aparecimento do símbolo “XP” em vários outros lugares. 
Sabemos que o crescimento do cristianismo na Bretanha foi espantoso. Os Celtas receberam a nova religião com muita facilidade entre os séculos II e IV d.C. e o contato entre a nova religião e a cultura celta acabou por criar um tipo de cristianismo mais descentralizado, mais voltado à sensibilidade - embora também austero - e onde a figura feminina desempenhava um espaço muito maior. Tudo isso ocorria sem prejuízo para a igreja. Kickhöfel (1995, 19), por exemplo, nos lembra que “três bispos ingleses participaram do Concílio de Arles, no sul da França, em 314”, e que, embora sem referências à presença de bispos ingleses ao Concílio de Nicéia (325), “Atanásio escreve que a igreja inglesa observava as decisões daquela história reunião ecumênica”. 
O que sabemos deste período é que, com a saída dos romanos, em torno do século V, os anglo-saxões invadiram a ilha, destruíssem as igrejas e reduziram o cristianismo a um pequeno grupo de praticantes, mormente, nas regiões da Escócia e Irlanda. 
Diante do avanço das religiões não-cristãs, um monge beneditino tornado Papa, resolveu investir na re-cristianização da Inglaterra. Em 597, o Papa Gregório - o Grande - enviou o Agostinho acompanhado com mais 40 outros monges para cumprir esta missão. Chegando na região de Kent, foi recebido pelo rei Etelberto que tinha em sua esposa, Berta, uma cristã. Seu trabalho missionário logrou sucesso e, depois de batizar Etelberto, seria consagrado bispo da Inglaterra, e batizaria mais cerca de 10.000 pessoas nas redondezas de Cantuária, antes mesmo do final do ano. 
O crescimento deste cristianismo romanizado muito cedo se chocou com aquele tipo de cristianismo que resistia nas ilhas. Havia muitas diferenças entre eles. Os impasses - na sua maioria litúrgicos e disciplinares - foram resolvidos no Sínodo de Whitby em 663. Lá ficou decidido que os cristãos ingleses acatariam o modus operandi de Roma. Durante quase toda a Idade Média a igreja anglicana seria a igreja romana, na Inglaterra. Contudo, em função das distâncias e da realidade insular da Inglaterra - que ainda sofreria várias invasões pagãs - somente a partir de 1016, com a invasão do rei normando Cnut, é que a monarquia será restaurada e a igreja cristã protegida, tornando-se profundamente romana. 
Sempre existiu, na Inglaterra, um certo sentimento de autonomia. Este sentimento já pode ser visto na Carta Magna, ou no Ato de Provisão (1351) e no Estatuto Praemunire (1353) que “proíbem respectivamente a entrada em território britânico de qualquer bula ou sentença papais e impedem a apelação a tribunais eclesiásticos estrangeiros, declarando ilegítimas todas as nomeações feitas pelo papa”. (AQUINO, 2000, 18) Ao lado desta resistência política havia, também, muita crítica às posturas teológicas assumidas pela igreja de Roma. Estas críticas podem ser vistas nas obras de John Wicliffe (1328-1384). 
Quando, por razões pessoais, Henrique VIII rompe com a igreja romana em 1534, por meio de um Ato de Supremacia, ele sabia que seu ato - que ocasionaria reações duríssimas do papa - tinha o respaldo nas fortes idéias nacionalistas inglesas e nas doutrinas luteranas que estavam se espalhando entre o clero e as universidades. 
De fato, Thomas Cranmer, sagrado Arcebispo de Cantuária em 1533, será o grande baluarte das idéias reformadas na Inglaterra. Estas idéias farão com que ele promova uma grande reforma litúrgica profundamente inspirada nos ideais luteranos. 
Com a morte de Henrique VIII sobe ao trono, seu filho, Eduardo VI. Durante este período, em função da idade e da pouca saúde do rei, a Inglaterra será governada pelo “protetor”, o duque de Somerset, de orientação calvinista. Durante este período a liturgia anglicana sofrerá uma forte influência da reforma genebrina e a doutrina será expressa nos 42 Artigos. 
Com a morte prematura de Eduardo VI, sua irmã mais velha, Maria Tudor sobe ao trono. Profundamente católica, ela promove a reunião da igreja da Inglaterra com Roma e passa a perseguir os protestante de forma severa. Nos quatro anos em que esteve no trono, ela promoveu a morte de mais de 300 pessoas, dentre as quais a do próprio Arcebispo Cranmer. As ações severas de Maria acabaram por lhe trazer - ao lado da alcunha de “sanguinária” - uma forte reação do povo contra o catolicismo romano. 
Com sua morte, sobe ao trono, em 1558, Elisabete. Ela, em menos de um ano, aprova um Ato de Supremacia e um Ato de Uniformidade, tornando-se “suprema regente” da igreja e do Estado (atingindo assim as pretensões papais) e impondo, como único livro oficial o Livro de Oração Comum (atingindo assim as pretensões dos puritanos). Para muitos estudiosos Elisabete será a responsável pela formação do que hoje consideramos a Igreja Anglicana. Com seus atos ela colocou o anglicanismo em uma posição eqüidistante entre Roma e Genebra. Uma demonstração de seu desejo de criar uma igreja de via média ocorrerá em 1563 quando ela reduzirá os 42 Artigos a apenas 39, preservando neles apenas o que é essencialmente católico e essencialmente protestante. 
Neste período, que começa no século XVII e vai a te o século XIX, a Inglaterra se torna progressivamente em uma das mais importantes nações do mundo e seu império se fará perceber em todos os rincões do planeta. Enquanto a Inglaterra dá prosseguimento a seu projeto de expansão colonialista, a igreja anglicana vai dando apoio espiritual aos soldados e políticos que se espalham pela Ásia e pela África. Surge, neste momento, o que chamaremos de Comunhão Anglicana. 
A Comunhão Anglicana (CA) será o nome dado à família de Igrejas autônomas que surgiram em torno da tradição da Igreja da Inglaterra. Composta de cerca de 39 Províncias (igrejas autônomas) estas igrejas tem em comum o que chamamos de Laços de afeição: estes laços implicam na recepção e na aceitação de alguns elementos bem distintos do anglicanismo. O primeiro destes elementos é o Livro de Oração Comum (LOC). Principal documento da Reforma inglesa, ele é o resultado do trabalho de Thomas Cranmer e aparece em 1549, com a finalidade de dar ao povo, em sua própria língua, os livros sagrados que eram propriedade do clero (missal, sacramentais, breviários, ordinais, lecionário). 
O segundo elemento que une a CA é o Arcebispo de Cantuária. Ele é o bispo da diocese da Cantuária, na Inglaterra, o Arcebispo da província de Cantuária - que inclui as dioceses do centro e do sudoeste da Inglaterra e da Europa - e o Primaz de toda a Inglaterra. Como membro da Casa dos Lordes ele possui assento no parlamento britânico. Embora sem jurisdição fora da Inglaterra ele é reconhecido como líder espiritual da Comunhão Anglicana. Hoje, o 105º Arcebispo da Cantuária é Sua Graça Justin Welby. 
O terceiro elemento é a Conferência de Lambeth (CL). Esta conferência é uma assembléia que congrega todos os bispos da CA e que se reúne a cada 10 anos para discutir os mais variados tremas em caráter consultivo. A primeira CL ocorreu em 1867 com 76 bispos, e a última ocorreu em 2008. 
O quarto elemento é o Encontro dos Primazes, que congrega regularmente os bispos presidentes das províncias da C.A. 
Em quinto lugar está o Conselho Consultivo Anglicano (CCA). Esta assembléia internacional criada em 1969, é composta por clérigos e leigos, homens e mulheres, que se reúnem a cada 3 anos para discutir assuntos relativos à missão, ecumenismo, teologia, etc. 
Finalmente o Quadrilátero de Lambeth. Este documento possui as crenças fundamentais que unem os anglicanos ao redor do mundo, e que são basicamente quatro: As Escrituras do Antigo e do Novo Testamento; os Sacramentos do Batismo e da Eucaristia; os Credos apostólicos e Niceno como resumos suficientes da fé cristã, e o Episcopado histórico adaptado localmente a cada situação. 
Ênfases teológicas centrais 
O anglicanismo não terá uma teologia propriamente sua, como ocorrerá com outras denominações. O que o anglicanismo desenvolverá é, de fato, uma forma de se fazer teologia. Dentro desta forma propriamente anglicana haverá um grande espaço para a Liturgia e para a Encarnação. É comum se dizer que não temos um livro de crenças, mas um Livro de Oração. Ou seja, nossa teologia está exposta na nossa adoração (lex credendi lex orandi). O outro elemento comum na reflexão teológica anglicana é a Encarnação. Refletindo neste tema os anglicanos escrevem sobre assunto como: eclesiologia, missão, inculturação, envolvimento político, crise da metafísica, etc. 
Práticas sócio-eclesiais características 
As ênfases teológicas voltadas para a liturgia e para a Encarnação do Verbo acaba por se traduzir em uma prática sócio-eclesial profundamente marcada pela compreensividade e pela inclusividade. Este clima de abertura para o outro e para o diferente encontrará um profundo reflexo na pastoral (igreja voltada para dentro: confissão, aconselhamento, comunhão) e no diálogo ecumênico e religioso (igreja voltada para fora: profetismo, transformação da realidade, acolhimento). 
Tendências e correntes 
No anglicanismo era comum se dizer que havia - grosso modo - pelo menos três correntes internas: a Igreja Alta (anglocatólica), a Igreja Baixa (fortemente protestante) e a Igreja Larga (de tendência liberal). Hoje estas distinções aparecem apenas para fins didáticos ou caricaturais. Isto é assim, primeiro porque a noção de “tipo ideal” é apenas uma categoria weberiana sem correspondência no mundo real; e depois porque há uma profunda inter-influência entre elas, de tal forma, que é possível encontrar as mais inusitadas formações. Desde um anglo-católico com tendência carismática e engajamento político de esquerda, até um evangelical com forte inclinação litúrgica e postura teológica pós-estruturalista. Em resumo, os rótulos já não dizem muita coisa. 
Expansão e presença na sociedade contemporânea 
Os anglicanos somam hoje cerca de 90 milhões de pessoas no mundo, espalhadas por cerca de 165 países em 39 Províncias ou igrejas autônomas. Isto significa que somos a terceira denominação cristã em números de membros e a segunda mais disseminada pelos países do globo. Nossa presença se faz notar nos principais países do mundo, bem como na Organização das Nações Unidas, quer seja por meio de membros eleitos para cargos públicos que seja por representantes formais que fala em nome da igreja. 
Pequeno histórico dos anglicanos no Brasil 
A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil é vista como o resultado da união de dois esforços históricos bem definidos. O primeiro deles ocorre no começo do século XIX com o estabelecimento de tratados envolvendo a Inglaterra e o Brasil. Estes tratados davam direito aos marinheiros ingleses, em passagem pelo Brasil, de receberem nos principais portos (Belém, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Santos) assistência religiosa ministrada por sacerdotes anglicanos em capelas construídas exclusivamente para este fim. Este momento de capelania perdurou por muito tempo. 
O segundo momento ocorreu com o Movimento Missionário Moderno do século XIX. Este movimento atingiu o Seminário Episcopal de Virgínia, de onde partiram os pioneiros do anglicanismo missionário brasileiro. As primeiras informações sobre a situação religiosa no Brasil foram levadas ao Seminário pela filha do fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil, Asbel Simonton, que era vizinha do Seminário. Estas informações se espalhavam entre os seminaristas e logo, dois jovens recém-formados, se prontificaram a vir trabalhar no campo missionário do Brasil. Seus nomes: Lucien Lee Kinsolving e James Watson Moris. Eles chegaram ao Brasil em 26 de setembro de 1889 e logo foram orientados a seguirem para o sul, onde chegaram em abril de 1890, com uma carta de recomendação assinada por Eduardo Carlos Pereira e endereçada a Vicente Brande, um presbiteriano que se tornaria o primeiro ministro anglicano brasileiro. O primeiro bispo residente foi o Rev. Kinsolving que, sagrado em 1899, permanecerá ativo por mias 27 anos. Ele era um incansável missionário. Segundo Aquino (2000, p. 28), “ao se aposentar, por causa da saúde, deixou a igreja com os seguintes números: 13535 batizados, 4997 confirmados, 2537 alunos de escola dominical e 25 templos ou capelas construídos”. 
Dados atuais do anglicanismo no Brasil 
Nos últimos 10 anos a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil se viu diante de cismas, dissidências e do surgimento de outras igrejas de tradição anglicana - conhecidas como igrejas continuantes, embora não façam parte da Comunhão Anglicana. Algumas delas podem ser citadas: a Diocese do Recife, o Movimento Anglicano do Brasil, ligado à Catedral Anglicana de São Paulo, a Igreja Cristã Episcopal, a Igreja Anglicana Tradicional, a Província Anglicana Sagrado Coração, a Igreja Anglicana Reformada, a igreja episcopal carismática, etc., etc. Todas estas igrejas mantêm aspectos litúrgicos e doutrinários que as ligam ao anglicanismo, embora não estejam ligadas à IEAB. 
O futuro do anglicanismo no Brasil dependerá em muito de nossa capacidade de dialogar. Tenho a impressão que o discurso da igreja majoritária continuará sendo triunfalista e superiora. Caberá às igrejas continuantes estabelecer instrumentos de diálogo e cooperação para o mútuo fortalecimento e o crescimento do anglicanismo ainda que em separado da IEAB que, por sua arrogância dialoga com as igrejas continuantes, se mantêm subserviente à Igreja Romana nas instituições ecumênicas. 
Bibliografia: 
NEIL, S., El Anglicanismo, M.C.E. Horeb, Madri, 1986 
KIRKHÖEFEL, O., Notas para uma história da IEAB, Editora gráfica Metrópole, Porto Alegre, 1995 
AQUINO, J., Pequeno Vocabulário Anglicano, Natal, 1998 
AQUINO, J., Anglicanismo uma introdução, Perfilgráfica, Recife, 2000 

2 comentários:

  1. Querido Irmão Rev. Jorge Aquino. O diálogo entre os diversas auto proclamadas "Igrejas Anglicanas" ou "episcopais" no Brasil não é tão simples assim, como tenho escrito em outros espaços, pois há de tudo neste meio! De católicos independentes a neo pentecostais que descobriram ser um bom negócio colocar o título "Anglicana" ou "Episcopal" na placa de suas igrejas, mas que em nada tem a ver com a nossa forma de ser e agir! Sem falar nos intermináveis cismas, provocados por aqueles que pareciam ovelhas, mas quando chegam onde queria se mostram lobos! Creio que o Movimento Anglicano do Brasil, se realmente desejar unir verdadeiros anglicanos fora da IEAB, tem tudo para ser o mediador do diálogo e da Unidade. A Diocese do recife tentou isso, através de Dom Robinson, mas eles tiveram a mesma postura da IEAB, de superioridade. Desejaram ser a "prima dona"" Uniram de tudo, inclusive católicos independentes, travestidos de "anglicanos", mas os subjugaram! Os bispos todos tiveram que resignar ao episcopado e se submeter ao poder de Dom Robinson. Com certeza esta postura foi porque estavam ligados a Província do Cone Sul, e acreditavam que nunca deixaria de ser da Comunhão Anglicana, mas estes laços se mostraram frágeis, pois a Província do Cone Sul não ordena mulheres ao sacerdócio, somente diaconisas, e a DR sim e com a morte da figura mais importante deste grupo não conseguiram permanecer na Província do Cone Sul, que também é extremamente conservadora e evangelical! Pois bem toda a articulação de Dom Robinson, em fazer crescer sua "diocese" não deu frutos, foi um inchamento! Na ânsia de crescimento ele aceitou quem se submeteu ao seu poder, até clérigos de igrejas irmãs, sem o mínimo de consideração! Hoje a grande maioria destes que incharam sua Diocese não mais estão lá, saíram e se uniram a outras tradições cristãs, principalmente a Igreja Siriana. Assim o Movimento Anglicano do Brasil tem tudo para ser um elemento de convergência, mas seus líderes devem ser muito prudentes para não repetir os erros de Dom Robinson.

    ResponderExcluir