quinta-feira, 30 de maio de 2019

Há espaço para "ex-comunhão" Anglicana?


por Reverendo Leandro Antunes Campos

Apesar de ser um tema espinhoso é necessário tecer algumas reflexões sobre a temática.
Primeiramente, o Batismo e a Santa Comunhão são ordenanças diretas de Cristo que unem cada batizado com Ele - cabeça da Igreja, e uns com os outros numa nova e eterna Aliança. (cf. Mateus 28.19; Mateus 26.26-28)
Os cristãos primitivos eram identificados por regiões geográficas: Jerusalém, Antioquia, Roma, Corinto, Éfeso, Galácia, Tessalônica, etc. Paulo, apóstolo, também se dirige a algumas lideranças (presbíteros e bispos) Timóteo, Tito, Filemon, etc.
O núcleo da vida cristã era definido como "e perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações". Atos 2.42
Segundo Adrian Chatfield em sua obra "Algo em Comum" uma comunidade Anglicana pode ser formada de diferentes modos, a saber:
a) por iniciativa institucional: uma província, uma diocese, uma paróquia dá origem a uma nova comunidade Anglicana como parte de um planejamento missionário;
b) por iniciativa pessoal: uma pessoa ou um grupo de pessoas, clérigos ou leigos, iniciam uma comunidade antes mesmo de uma decisão ou apoio institucional para tal;
c) Ou quando um grupo de cristãos de outra tradição - católicos, ortodoxos, protestantes, evangélicos, carismáticos decidem por viver a "identidade anglicana" independente de uma ligação formal com alguma Igreja Anglicana com lastros históricos.
De fato, o Congresso Pan Anglicano de Chicago inseriu a ideia de um "mínimo consenso" para a família de Igrejas que se consideram Anglicanas: o Quadrilátero Chicago-Lambeth.
- As Sagradas Escrituras do Antigo e Novo Testamentos;
- Os Sacramentos do Batismo e Santa Comunhão;
- Os Credos Niceno, Apostólico e Atanasiano; 
- O Episcopado Histórico;

Me parece previamente que tal Quadrilátero não reflete a totalidade do "Ser Anglicano" até porque sua definição é o "mínimo consenso" que deve haver entre nós.

A Liturgia Anglicana une os cristãos Anglicanos ao redor do mundo. Seja a clássia tradução do Livro de Oração Comum de 1662 ou a recente publicação do Livro de Oração Comum de 2019 da ACNA, a estrutura das Orações Diárias, da Santa Comunhão, dos Sacramentos, dos Ritos Sacramentais, e dos Ofícios Ocasionais criam um ambiente familiar a todos nós.
A Hinologia - muitos hinários preservam parte da herança da reforma Inglesa do século XVI e das missões modernas dos séculos XIX e XX. É claro, que as comunidades locais tem liberdade para inserir hinos de sua cultura e adequadas a cada geração sob supervisão dos ministros responsáveis.
Há algumas variações na eclesiologia. Vivemos uma constante tensão entre o congregacionalismo (plena democracia das congregações) e o episcopalismo (governo episcopal). A Igreja Anglicana escolheu um sistema que concilia ambos. O bispo governa com auxilio dos sínodos, concílios e assembleias paroquiais, dividindo seu poder com os clérigos e leigos de sua jurisdição.
O Arcebispo de Cantuária ainda que não tenha ou exerça qualquer poder a mais sobre outros bispos ou dioceses fora da Inglaterra, se mantém como um símbolo para unidade da fé e prática Anglicana. Ele convoca e preside a Conferência de Lambeth, a Reunião de Primazes, e o Conselho Consultivo Anglicano.
Os 5 pontos da Missão são chamados de marcas da missão e foram definidas pela Comunhão Anglicana nos anos oitenta, a saber:
1. Proclamar o Evangelho do Reino;
2. Ensinar, batizar e formar os fiéis;
3. Responder às necessidades humanas com amor;
4. Buscar a transformação das estruturas injustas da sociedade;

5. Lutar pela salvaguarda da integridade da criação, sustento e renovação da terra;
A preservação integral da Identidade Anglicana me parece muito mais complexa do que meramente uma discussão sobre essa ou aquela jurisdição.
Chatfield, continua sua reflexão dizendo que a sucessão apostólica propriamente dita têm três diferentes entendimentos.
1) a transmissão do múnus pastoral por imposição das mãos de bispos validamente ordenados; 
2) a fidelidade ao ensinamento apostólico; 
3) a sucessão em uma sé histórica;

Portanto, meus irmãos e irmãs, concluo dizendo que a "ex-comunhão Anglicana" enquanto uma possibilidade antropológica é sempre uma "auto-excomunhão" quando uma pessoa ou grupo de pessoas decide(m) deliberadamente não comungar com os outros grupos que discordem delas doutrinariamente num ponto ou mais.

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