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Mensagem da Quarta-feira de Cinzas



Escrito por D. Laurence
Hoje, muitos de nós receberemos as cinzas – os restos incinerados dos ramos do ano passado – que serão [colocadas em nossas cabeças ou] aplicadas em nossa testa, da mesma forma que muitas pessoas dos tempos bíblicos “cobriam suas cabeças com cinzas” em tempos de luto ou de crise.
Para as crianças pode ser uma experiência do sagrado interessante, a descoberta de um simbolismo novo e o enriquecimento do vocabulário de sua vida espiritual. Para os cristãos mais adultos, trata-se de um ritual familiar que leva de volta para casa, um pouco mais consciente a cada ano, a memória da mortalidade: “Lembra-te de que és pó e para o pó hás de voltar” (Gn 3,19). Para a maioria das pessoas em nosso tempo secularizado, trata-se somente de somente mais um resíduo incompreensível de um mundo religioso arcaico.
De um modo ou de outro, gostamos de marcar períodos e tempos especiais – são, claro, feitos pelo homem. A Quaresma somente começou a ser observada no Século IV. Ainda que nosso ano não seja mais do que uma plataforma composta de dias de semana, fins de semana, viagens de negócio e férias, a sua bidimensionalidade logo nos torna desejosos por “algo mais” que corresponde ao nosso complexo senso religioso. Muitos de nós podemos nos virar sem religião, mas não podemos escapar dessa nostalgia. Uma vez sentida, busca por expressão.
Então apreciemos as cinzas. Lembro-me quando criança costumávamos nos sentir orgulhosos e especiais ao conservar nossas cinzas de maneira clara e ostensiva na rua ou no metrô. Procurávamos a nossa volta por outros com a mesma marca, sentindo-nos como membros de um clube secreto ou ao menos exclusivo. Ouvimos as palavras de Jesus durante a celebração sobre o jejum (tomar alimento somente uma vez ao dia também faz parte das recomendações para a Quarta-feira de Cinzas): “quando jejuardes, ungi a cabeça e lava o rosto para que o teu jejum não seja percebido pelos outros, mas somente por teu Pai que está no segredo” (Mt 6,16). Como crianças, porém, aprender a religião pela prática, podemos nos sentir bem ao expor nosso ascetismo. Sentíamo-nos diferentes e talvez um pouco melhores.
A Quaresma é uma oportunidade cujo significado temos que reconhecer antes de ser provada como útil para nós. Obviamente não significa chamar atenção para nós mesmos. Não significa auto infligir-se de dor ou sofrimento tanto quanto a formação e treino de um atleta pode machucar. A Quaresma é sobre melhorar a forma e a agilidade da nossa vida espiritual, cuja meta é alcançada por medidas de moderação cuidadosa, autodomínio e, com um pouco de criatividade, por esforçar-se mais e mais rumo à esfera da consciência.
Caso ainda não tenha decidido o que “fazer” durante a Quaresma, talvez possa considerar uma prática com triplo desdobramento: 1) Abster-se ou reduzir alguma forma de consumo, seja comida, bebida ou vício digital; 2) Melhorar ou incrementar sua prática de meditação durante a manhã ou à noite ou acrescentar uma outra no meio do dia; 3) Comprometer-se a um melhor ritmo de vida e substituir uma distração desnecessária (muitos de nós conservamos muitas) por uma atividade mais criativa estimulante, seja física, uma leitura ou música.
O “mistério” que Jesus recomenda desafia nossa cultura de auto revelação (exposta pelo nosso culto à privacidade e às senhas). Não se refere à segredo, de fato, mas à interioridade e respeitando o fato de que a maioria dos frutos de nossa Quaresma serão sentidos de dentro. Que seja bom e que seja interessante.

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