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NOTÍCIAS DA CATEDRAL ANGLICANA DE SÃO PAULO

Quem são os padres casados?


Os padres casados estão em toda parte. Formam um exército de pelo menos 100 mil homens, 5% deles no Brasil. Não gostam de ser chamados de ex-padres, por causa da tradição de que “uma vez padre, sempre padre”, cuja origem alegam estar na passagem bíblica: “Você é sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” (Sl 110.4; Hb 5.6 e 7.17, EP). Por terem contraído matrimônio, com ou sem a necessária dispensa do compromisso do celibato concedida unicamente pelo papa, esses homens foram excluídos do ministério sacerdotal, não por vontade própria, mas por imposição de uma disciplina multissecular. São também chamados de egressos, especialmente quando antes vivam em clausura. Setores da Igreja Católica e o povo de um modo geral continuam a chamá-los de ex-padres. Eles abandonaram a batina, como se dizia antigamente, mas não abandonaram a Igreja, salvo raríssimas exceções. Por terem quebrado o voto do celibato, não são de forma alguma necessariamente homens promíscuos. Ao contrário, submeteram-se à disciplina de exclusão do sacerdócio para se relacionarem com uma mulher exclusivamente sob a proteção do matrimônio, o que não acontece com alguns de seus antigos colegas de ministério. “Não posso acreditar que todos os 100 mil sacerdotes casados ao redor do mundo são superficiais e inconseqüentes”, confessa dom Pedro Casaldaliga, bispo de São Félix, aqui no Brasil.
Em quase todos os países existem associações de padres casados, inclusive na Índia, onde a porcentagem de todos os cristãos não chega a 5%. Em âmbito mundial há a Federação Internacional de Padres Casados (a Assembléia Geral se reunirá em Madri em setembro deste ano). No âmbito continental, temos a Federação Latino-Americana para a Renovação Sacerdotal, cujo secretário executivo é o psicanalista brasileiro José Ponciano Ribeiro (padre casado).
Uma das organizações congêneres no Brasil é conhecida pela sigla MPC – Movimento de Padres Casados (a mesma sigla entre os evangélicos tem outro significado: Mocidade para Cristo). O 14º Congresso Nacional do MPC católico acontecerá em São Luís do Maranhão nos próximos dias 11 a 14 de julho.
Por serem muitos, por desejarem ardentemente a abolição do celibato obrigatório e por não terem abdicado, muitos deles, a vocação para servir a Deus, os padres casados estão se organizando cada vez mais. Entre as associações existentes, é possível mencionar: MOCEOP (Movimento Celibato Opcional, na Espanha), CCC (Catholics for a Changing Church), MOMM (Movement for the Ordination of Married Men), CITI Ministries (Celibacy Is The Issue), Parish Watch, Justice For Priests and Deacons, We Are Church, e assim por diante. Dentro do Movimento dos Padres Casados do Brasil está a Associação Rumos, antes denominada Centro de Padres e Religiosos Egressos. Essa organização publica há vinte anos o jornal Rumos.
A quantidade de padres casados no Brasil é uma das maiores do mundo. O número de egressos (5 mil) é quase igual à terça parte dos padres no exercício do ministério (16 mil). De acordo com Áureo Kaniski, na capital do Espírito Santo vivem 119 padres – 73 na ativa (61,3%) e 46 casados (38,7%). De uma turma de 29 formandos de 1958 do Seminário Maior São José, de Mariana, Minas Gerais, sete já morreram (24,1%), oito se casaram (27,6%) e 14 continuam no sacerdócio (48,3%).
Os padres casados gostam de lembrar que 39 papas foram casados, inclusive (segundo a tradição católica) o primeiro deles, o apóstolo Pedro, cuja sogra Jesus curou (Mt 8.14-15).
Não é preciso ser padre casado para enxergar a tremenda injustiça que a Igreja Católica Romana comete contra este numeroso grupo de egressos. Além de ordenar homens  casados de outros ritos católicos e de outras denominações cristãs não católicas (como os cem pastores que deixaram recentemente a Igreja Anglicana por discordarem da ordenação de mulheres), as autoridades eclesiásticas excluem do sacerdócio os padres que se casam e mantêm no altar aqueles que têm amantes do sexo oposto ou do mesmo sexo, e aqueles que cometem abuso sexual e o crime da pedofilia. Enquanto estes padres celebram a missa, batizam, ouvem confissões e perdoam pecados alheios em nome de Deus e ainda pregam, aqueles que praticam o sexo dentro do sacramento (no caso da Igreja Católica) do matrimônio não podem oficiar cerimônia nenhuma. E o povo católico, em vez de protestar contra isso, “deplora mais o casamento do padre que o seu pecado”, como denuncia Marcos Noronha, que foi bispo da Diocese de Itabira na segunda metade da década de 60, no livro Marcos Noronha e a Igreja (p. 59). É por isso que o padre casado Aloísio Guerra, hoje com 72 anos e vigário da Paróquia de São Pedro Apóstolo, da Arquidiocese Ortodoxa Antioquina de São Paulo, em Recife, é obrigado a dizer que Roma valoriza mais o celibato (entendido apenas como ato de não casar) do que a castidade. Curiosamente, enquanto a lei do celibato é dos homens, a lei da castidade é de Deus. Aloísio Guerra ordenou-se padre em 1959. Permaneceu no sacerdócio católico apenas cinco anos, casando-se em seguida, aos 34 anos. Tem dois filhos e quatro netos. Autor do livro Celibato, Santo ou Safado?, Aloísio faz uma mistura de verdade com ironia para afirmar: “O único pecado grave, capaz de afastar o padre do ministério é o sacramento do matrimônio” (p. 30).
Em seu livro Obstinação Eclesiástica, o professor Áureo Kaniski, também padre casado, mostra-se revoltado ao lembrar-se de um reitor de seminário que, no dia em que comemorava mais um aniversário de ordenação, foi flagrado num motel de Maceió com o propósito de ter relações com uma menina de rua de 14 anos. O arcebispo daquela arquidiocese não encontrou forma de punir o formador de novos padres; mas, se este tivesse contraído matrimônio, seria muito fácil expulsá-lo do ministério.
Foram os padres americanos obedientes ao celibato e desobedientes à castidade que fizeram milhares de vítimas nos últimos dez anos nos EUA e obrigaram as dioceses daquele país a gastar entre 300 mil a 1 bilhão de dólares para pagar acordos extrajudiciários nos casos de abusos sexuais.
Uma coisa é abraçar o celibato por vontade própria. Outra é submeter-se a ele só por causa da vontade de abraçar a carreira religiosa. O primeiro brasileiro a tornar-se pastor evangélico foi o ex-padre José Manuel da Conceição. Embora desobrigado do celibato por ter se tornado pastor presbiteriano em dezembro de 1865, aos 43 anos, Conceição nunca se casou. A história de Frei Betto, 58 anos, é muito parecida com a história do famoso pastor anglicano John Stott, no que se refere ao estado civil. Ambos tiveram oportunidade de se casar e não se casaram. “Só não me casei”, lembra o dominicano, “porque as mulheres que me interessaram não se interessaram por mim e as que se interessaram por mim, eu não me interessei por elas...” Já o teólogo protestante, na sua juventude, gostou de algumas moças, mas foi protelando de tal maneira o casamento que acabou se envolvendo demais no ministério e não mais achou tempo para o matrimônio. Esse é o celibato que dá certo. Em carta a Ultimato, o cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, 68 anos, professor do Seminário de Mariana e historiador, dá o seu testemunho:
Aproximando-me dos 50 anos de sacerdócio só tenho  que bendizer a Deus pelo celibato e fico pensando como daria conta, até hoje, do que devo fazer pela evangelização se tivesse mulher e filhos para cuidar. Não me sobraria um momento para preparar homilias, artigos, sermões, aulas, atendimento aos fiéis. É preciso ler e reler 1 Coríntios 7.29-34.
Os padres casados alimentam a esperança da revogação do celibato obrigatório e a reintegração deles no ministério. “Ainda veremos padres casados ministrando os sacramentos”, garante Agenor Coldebella. Em Minhas Esperanças para a Igreja, escrito em alemão e publicado no Brasil pela Editora Santuário em parceria com a Paulus, em 1999, o professor emérito de teologia moral Bernhard Häring, morto em 1998, lembra que “não é preciso ser nenhum profeta para prever que isto [a exigência do celibato para a ordenação sacerdotal] vai acabar, logo que o centralismo ceda à constituição subsidiária da Igreja” (p. 153). Outro dia, o padre jesuíta Renato Hevia Rivas, 65 anos, ex-diretor da revista católica Mensaje, que deixou o sacerdócio para casar-se com uma advogada, declarou pela Televisão Nacional do Chile que “não existe nenhuma razão teológica de peso para manter o celibato, para proibir que padres se casem ou que irmãs celebrem missa” (Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação, no noticiário de 11 de junho de 2002). Aliás, de acordo com a pesquisa realizada pela Fundação Futuro, 62% dos católicos chilenos entrevistados entendem que os padres devem se casar.
Uma das previsões de Paulo diz respeito ao celibato impingido: “O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns... proibirão o casamento” (1 Tm 4.1-5). Em nota de rodapé, a Edição Pastoral da Bíblia, publicada pela Paulus, explica:
Nos últimos tempos, isto é, entre a ressurreição e a segunda vinda de Cristo, multiplicam-se os mestres e doutrinas que adulteram a fé. Alguns desprezam tudo o que se refere ao corpo, condenando o matrimônio, proibindo alimentos e pregando exageradas práticas ascéticas (p. 1.531).
A Bíblia de Jerusalém comenta que “a condenação do casamento será uma das características do gnosticismo” (p. 1.647). A tradução da CNBB chama tal coisa de “ascetismo desvairado” (p. 1.557).
Ora, se é assim, por que não voltar atrás na formulação de uma obrigação que cheira a “exageradas práticas ascéticas” e que chega bem perto do “ascetismo desvairado”?

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