sábado, 13 de julho de 2019

Os monges do oriente e a espiritualidade bizantina

Os Monges do mundo grego, sírio e palestino souberam entre os séculos V e VIII desenvolver uma espiritualidade mística e contemplativa profunda, posteriormente entre os séculos XIII e XIV, apotegmas¹ e obras de nomes como Evágrio Pôntico, João Clímaco, Simeão o Novo Teólogo, Nicéforo, Gregório o Sinaíta, Pacômio, Teodoro Estudita, Marcos o Eremita, e Elias o Écdico estavam espalhadas por quase todo o oriente cristão.
A herança da reflexão ascética de Santo Antão e de outros Padres do Deserto no oriente não se limitou aos mosteiros, mais também há grandes teólogos, vários deles numerados entre os “Padres da Igreja” assim como muitos outros autores bizantinos. Os escritos destes homens foram muitos influentes na Igreja do oriente, a contribuição deles em especial a preeminência da Escola Sinaítica que desenvolve-se notavelmente nos séculos VI e VII principalmente quanto hesicasmo, método de oração fundamentado na repetição infinita e na apropriação interior do nome de Jesus. Técnica que com os monges do Monte Athos será profundamente transmitida à Igreja durante o Império Bizantino. A Salmodia e o uso das Escrituras foram grandes expressões da vida dos Padres do Deserto e dos monges orientais.
O Monaquismo ocidental tomou um rumo próprio e diferente como espiritualidade monástica quando comparado com os autores místicos do oriente e a espiritualidade bizantina, as abadias ocidentais tomaram das regras desenvolvidas por Santo Agostinho e São Bento uma enorme difusão ao longo dos séculos, a espiritualidade destas escolas oscilou no ocidente, mas apesar dos momentos em que passou a espiritualidade ocidental, soube preservar uma teologia Ascética rica e abertamente conciliável quando alinhada com a profunda oração, humildade e ascetismo dos Padres monacais do oriente.
Os teóricos da oração, os grandes hesicastas e mestres na Ascese² no oriente, não são tão conhecidos no Ocidente, talvez porque suas obras ou sentenças foram tardiamente inseridas na literatura ocidental através de tratados e antologias traduzidas ou copiladas em raríssimas edições durante a Idade Média.
A tradição monástica oriental floresceu a vida de muitos cristãos por anos e ainda hoje alimenta a vida das Igrejas orientais Sui Juris em comunhão com o Papa ou as Igrejas ortodoxas separadas. Caminhos, exercícios, formulas e métodos penduraram anos de dedicação na mente e intelecto de homens e correntes de espiritualidade, “A oração do coração” ou “Oração pura, sem distração”, “A invocação do nome de Jesus” junto à clássica frase “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim”. Também ocupou e teve adesão de místicos no ocidente e influencia nas técnicas jaculatórias. Sem falar na “Lembrança de Deus” ou “Recordação de Deus” oriunda de São Basílio que ocupou a muitos monges do oriente, são os sinais e expressões visíveis da riqueza da espiritualidade oriental.
No século XVII fora publicada uma obra que se tornara clássica para a vida e oração das Igrejas do oriente a “Filocalia” que veio a reunir diversos autores, textos e sentenças espirituais dos Padres da Igreja e monges bizantinos. Trago abaixo citações desta obra que fora traduzida também para a língua portuguesa e tem obtido um verdadeiro interesse do Ocidente nos últimos séculos.
“Não poderias possuir a oração pura, estando perturbado com coisas materiais e agitado por inquietações contínuas, pois a oração é abandono dos pensamentos”. (p. 23, nº 70 Evángrio Pôntico).
“Nossa oração não deve começar por nenhuma convenção nem hábito: atitude corporal, silêncio, genuflexão. Devemos vigiar com atenciosa sobriedade o nosso espírito, esperando o momento em que Deus se apresente, visite a alma através de todas as passagens, atalhos e sentidos. Só é preciso calar-se, gritar e orar com clamores, quando o espírito está solidamente ligado a Deus. A alma deve despojar-se inteiramente, para a súplica e o amor de Cristo, sem distração, nem divagação de pensamentos”. (p. 31, Macário, o Grande).
“Se, portanto, começarmos a cumprir com fervor dos mandamentos de Deus, a graça logo iluminará nossos sentidos com um sentimento muito profundo; consumirá, por assim dizer, nossos pensamentos, suavizará nosso coração pela paz de uma inexprimível amizade, e dar-nos-á a disposição para pensar coisas espirituais e não mais carnais. É o que acontece continuamente com os que se aproximam da perfeição e guardam no coração, ininterrupta, a lembrança de Jesus.” (p. 47, Diádoco de Fótico).
“A lembrança de Deus é um labor do coração, suportado pela fé. Quem quer que esqueça Deus, torna-se amigo da paixão e insensível.” (p. 52, nº 122, Marcos, o Eremita).
“O coração de quem examina a própria alma a todo instante goza das revelações. Quem recolhe a contemplação no interior de si mesmo, contempla o brilho do Espírito; quem desprezou a dissipação, contempla o seu Senhor dentro do próprio coração”. (p. 59, Issac de Nínive (S. Isaac, o Sírio).
Citações de nomes que podem ser desconhecidos para os ouvidos de milhares de ocidentais e até bons católicos, no entanto a vida e obra destes homens contribuíram fortemente com a espiritualidade cristã. O estudo e a reflexão de suas obras são uteis aos cristãos que desejam deparar-se com uma ortodoxa espiritualidade nascida no seio da Igreja Católica.
Notas:
¹ Apotegmas: São sentenças dos Santos Padres da Igreja.
² Ascese: Em seu sentido original, é o conjunto dos exercícios ou práticas mortificantes e penitentes tendo a finalidade de reorientar tendências desordenadas, robustecer a liberdade e preparar o homem interiormente, fora desenvolvida pelos monges e Padres do Deserto.
Referências:
PEQUENA FILOCALIA, o livro clássico da Igreja oriental. [Tradução Nadyr de Salles Penteada]. 8º edição, Paulus, São Paulo, 2009, p. 23, 31, 45, 47, 51, 58, 60-61.
MAZZUCO, Frei Vitório. A Espiritualidade Hesicasta. Site da Província Franciscana da Imaculada Conceição em São Paulo, Brasil. Disponível em: http://www.franciscanos.org.br/noticias/noticias_especiais/espiritualidadehesicasta_110907/ Acesso em: 09 de Março 2011.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Há espaço para "ex-comunhão" Anglicana?


por Reverendo Leandro Antunes Campos

Apesar de ser um tema espinhoso é necessário tecer algumas reflexões sobre a temática.
Primeiramente, o Batismo e a Santa Comunhão são ordenanças diretas de Cristo que unem cada batizado com Ele - cabeça da Igreja, e uns com os outros numa nova e eterna Aliança. (cf. Mateus 28.19; Mateus 26.26-28)
Os cristãos primitivos eram identificados por regiões geográficas: Jerusalém, Antioquia, Roma, Corinto, Éfeso, Galácia, Tessalônica, etc. Paulo, apóstolo, também se dirige a algumas lideranças (presbíteros e bispos) Timóteo, Tito, Filemon, etc.
O núcleo da vida cristã era definido como "e perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações". Atos 2.42
Segundo Adrian Chatfield em sua obra "Algo em Comum" uma comunidade Anglicana pode ser formada de diferentes modos, a saber:
a) por iniciativa institucional: uma província, uma diocese, uma paróquia dá origem a uma nova comunidade Anglicana como parte de um planejamento missionário;
b) por iniciativa pessoal: uma pessoa ou um grupo de pessoas, clérigos ou leigos, iniciam uma comunidade antes mesmo de uma decisão ou apoio institucional para tal;
c) Ou quando um grupo de cristãos de outra tradição - católicos, ortodoxos, protestantes, evangélicos, carismáticos decidem por viver a "identidade anglicana" independente de uma ligação formal com alguma Igreja Anglicana com lastros históricos.
De fato, o Congresso Pan Anglicano de Chicago inseriu a ideia de um "mínimo consenso" para a família de Igrejas que se consideram Anglicanas: o Quadrilátero Chicago-Lambeth.
- As Sagradas Escrituras do Antigo e Novo Testamentos;
- Os Sacramentos do Batismo e Santa Comunhão;
- Os Credos Niceno, Apostólico e Atanasiano; 
- O Episcopado Histórico;

Me parece previamente que tal Quadrilátero não reflete a totalidade do "Ser Anglicano" até porque sua definição é o "mínimo consenso" que deve haver entre nós.

A Liturgia Anglicana une os cristãos Anglicanos ao redor do mundo. Seja a clássia tradução do Livro de Oração Comum de 1662 ou a recente publicação do Livro de Oração Comum de 2019 da ACNA, a estrutura das Orações Diárias, da Santa Comunhão, dos Sacramentos, dos Ritos Sacramentais, e dos Ofícios Ocasionais criam um ambiente familiar a todos nós.
A Hinologia - muitos hinários preservam parte da herança da reforma Inglesa do século XVI e das missões modernas dos séculos XIX e XX. É claro, que as comunidades locais tem liberdade para inserir hinos de sua cultura e adequadas a cada geração sob supervisão dos ministros responsáveis.
Há algumas variações na eclesiologia. Vivemos uma constante tensão entre o congregacionalismo (plena democracia das congregações) e o episcopalismo (governo episcopal). A Igreja Anglicana escolheu um sistema que concilia ambos. O bispo governa com auxilio dos sínodos, concílios e assembleias paroquiais, dividindo seu poder com os clérigos e leigos de sua jurisdição.
O Arcebispo de Cantuária ainda que não tenha ou exerça qualquer poder a mais sobre outros bispos ou dioceses fora da Inglaterra, se mantém como um símbolo para unidade da fé e prática Anglicana. Ele convoca e preside a Conferência de Lambeth, a Reunião de Primazes, e o Conselho Consultivo Anglicano.
Os 5 pontos da Missão são chamados de marcas da missão e foram definidas pela Comunhão Anglicana nos anos oitenta, a saber:
1. Proclamar o Evangelho do Reino;
2. Ensinar, batizar e formar os fiéis;
3. Responder às necessidades humanas com amor;
4. Buscar a transformação das estruturas injustas da sociedade;

5. Lutar pela salvaguarda da integridade da criação, sustento e renovação da terra;
A preservação integral da Identidade Anglicana me parece muito mais complexa do que meramente uma discussão sobre essa ou aquela jurisdição.
Chatfield, continua sua reflexão dizendo que a sucessão apostólica propriamente dita têm três diferentes entendimentos.
1) a transmissão do múnus pastoral por imposição das mãos de bispos validamente ordenados; 
2) a fidelidade ao ensinamento apostólico; 
3) a sucessão em uma sé histórica;

Portanto, meus irmãos e irmãs, concluo dizendo que a "ex-comunhão Anglicana" enquanto uma possibilidade antropológica é sempre uma "auto-excomunhão" quando uma pessoa ou grupo de pessoas decide(m) deliberadamente não comungar com os outros grupos que discordem delas doutrinariamente num ponto ou mais.

terça-feira, 28 de maio de 2019

DAS PENALIDADES QUE SE APLICAM AO CLERO E LEIGOS



(Copilado por Reverendo Leandro Antunes Campos)

Um dos documentos mais antigos do cristianismo “As Regras Apostólicas” - determina a “destituição” ou “excomunhão” como penalidade a ser aplicada ao clero bispos, presbíteros e diáconos e aos leigos em caso de pecado grave e quebra da tradição apostólica.

No parágrafo 15 diz assim (tradução livre): “Se um sacerdote ou diácono ou outro membro do rol sacerdotal, abandonar sua província e partir para outra, ou ainda, contradizendo a opinião do seu bispo, abandonar totalmente sua província para estabelecer outra, ordene-se que não celebre mais. Se o bispo o intima a voltar e ele não obedecer e se obstina, que comungue como um leigo”.

O conceito de “Oikonomia” na tradição cristã ortodoxa não possui definição clara. A Economia nasce da revogação da lei mosaica para ser obediente “ao espírito da lei” - esta é a pedra angular da Economia que é uma exceção à regra geral, as consequências legais que seguem a violação da norma ficam sem efeito e são suspensas.

Em seu caráter de lei da graça, os cânones são caracterizados principalmente pelos atributos espirituais de COMPAIXÃO, de SENSIBILIDADE PASTORAL e INDULGÊNCIA. Quando se trata de casos muito graves e especiais, busca-se privar por algum tempo o pecador do acesso a Santa Comunhão, para ajudá-lo a ter uma nítida e viva consciência da gravidade do seu pecado. Se o pecado for público e a comunidade tiver ciência do corretivo imposto, tal prática cumprirá a função catequética de apontar que existem certos atos que, pela gravidade, são inadmissíveis.

Os atos penitenciais não podem ser confundidos com punição em reparação por um certo erro cometido. Sua aplicação não pode denotar qualquer intencionalidade de represália vingativa contra o pecador, contrária ao espírito e propósito da disciplina canônica que está dotada de um duplo caráter: pedagógico e pastoral.

Nos últimos séculos, a possível aplicação da oikonomia em questões sacramentais tem sido abordada sob quatro diferentes perspectivas:

a) a oikonomia pode fazer com que, o que é inválido se torne válido, e o que é válido se torne inválido.
b) a oikonomia pode fazer com que, o que é válido se torne inválido, porém, não o contrário, ou seja, que o que é inválido se torne válido.
c) a oikonomia não pode fazer com que, o que é válido se torne inválido, mas, pode fazer com que, o que é inválido se torne válido.
d) a oikonomia nem pode fazer com que, o que é válido se torne inválido e, tão pouco que, o que é inválido se torne válido.

Se por um lado a Oikonomia na tradição milenar da igreja cristã ortodoxa parece menos definível e clara, na tradição da Igreja Católica o cardeal Ives Congar magistralmente esclarece o Direito Canônico:

- Dispensatio; (ato pelo qual em um caso específico, uma legítima autoridade concede relaxamento superior de uma lei existente.
- Epikeia (um prudente juízo acerca da aplicabilidade da lei em um caso particular);
- Suplet ecclesia (a suplência, por parte da Igreja do que possa faltar em determinada disciplina sacramental);
- Sanatio in radice (Sanação na raiz é um dispositivo do Direito Canônico que permite ao Bispo diocesano validar casamentos ou uniões inválidas. Eis como é formulado pelo Código: "A sanação na raiz leva consigo, além da dispensa ou cessação do impedimento, a dispensa da lei que impõe a renovação do consentimento e a retroação, por uma ficção do Direito, do matrimônio, quanto a seus efeitos canônicos, no tempo passado» - CDC cânon 1138, § 8).

Ao bispo diocesano e ao Sínodo da Igreja, ao aplicar a disciplina ao pecador, clérigo ou leigo, o faça com compaixão, sensibilidade pastoral e indulgência respeitando-se o caráter pedagógico e pastoral do ato penitencial para que não se confunda com uma represália vingativa e sim cumpra a função catequética de apontar que existem certos atos que, pela gravidade, são inadmissíveis.