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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Povo: em busca de um conceito


29/01/2015
Há poucas palavras mais usadas por distintas retóricas do que esta de “povo”. Seu sentido é tão flutuante que as ciências sociais dão-lhe pouco apreço preferindo falar em sociedade ou em classes sociais. Mas como nos ensinava L. Wittgenstein “o significado de uma palavra depende de seu uso”. Entre nós, quem mais usa positivamente a palavra “povo”são aqueles que se interessam pela sorte das classes subalternas: o “povo”.
Vamos tentar fazer um esforço teórico para conferir um conteúdo analítico a “povo” para que seu uso sirva àqueles se sentem excluidos na sociedade e querem ser “povo”.
O primeiro sentido filosófico-social deita suas raízes no pensamento clássico da antiguidade. Já Cicero e depois Santo Agotinho e Tomás de Aquino, afirmavam que “povo não é qualquer reunião de homens de qualquer modo, mas é a reunião de uma multidão ao redor do consenso do direito e dos interesses comuns”. Cabe ao Estado harmonizar os vários interesses.
Um segundo sentido de “povo” nos vem da antropologia cultural: é a população que pertence à mesma cultura, habitando determinado território. Quantos culturas, tantos povos. Esse sentido é legítimo porque distingue um povo do outro: um quéchua boliviano é diferente de um brasileiro. Mas esse conceito de “povo” oculta as diferenças e até contradições internas: tanto pertence ao “povo” um fazendeiro do agronegócio como o peão pobre que vive em sua fazenda. Mas no Estado moderno o poder só se legitima se estiver enraizado no”povo”. Por isso a Constituição reza que “todo poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido”.
Um terceiro sentido é chave para a política. Política é a busca comum do bem comum (sentido geral) ou a atividade que busca o poder de Estado para a partir dele administrar a sociedade( sentido específico). Na boca dos políticos profissionais “povo”apresenta grande ambiguidade. Por um lado expressa o conjunto indiferenciado dos membros de uma sociedade determinada(populus) por outro, significa a gente pobre e com parca instrução e marginalizada (plebs=plebe). Quando os políticos dizem que “vão ao povo, falam ao povo e aagem em benefício do povo”, pensam nas maiorias pobres.
Aqui emerge uma dicotonia: entre as maiorias e seus dirigentes ou entre a massa e as elites. Como dizia N. W. Sodré:”uma secreta intuição faz que cada um se julgue mais povo quanto mais humilde é. Nada possui, mas por isso mesmo orgulha-se de ser “povo”(Introdução à revolução brasileira, 1963, p. 188). Por exemplo, nossas elites brasileiras não se sentem “povo”. Como dizia antes de morrer em 2013 Antônio Ermírio de Moraes:”as elites nunca pensam no povo, somente em si mesmas”. Eis o problema que aflige já por séculos a sociedade brasileira.
Há um quarto sentido de “povo” que se deriva da sociologia. Aqui se impõe certo rigor do conceito para não cairmos no populismo. Inicialmente possui um sentido político-ideológico na medida em que oculta os conflitos internos do conjunto de pessoas com suas culturas diferentes, status social e projetos distintos.
Esse sentido possui parco valor analítico pois é globalizador demais embora seja o mais usado na linguagem da mídia e dos poderosos.
Sociologicamente “povo” aparece também como uma categoria histórica que se situa entre massa e elites. Numa sociedade que foi colonizada e de classes, aponta clara a figura da elite: os que detém o ter, o poder e o saber. A elite possui seu ethos, seus hábitos e sua linguagem. Face a ela, surgem os nativos, os que não gozam de plena cidadania nem podem elaborar um projeto próprio. Assumem, introjetado, o projeto das elites. Essas são hábeis em manipular “o povo”: é o populismo. O “povo” é cooptado como ator secundário de um projeto formulado pelas elites e para as elites.
Mas sempre há rachaduras no processo de hegemonia ou dominação de classe: lentamente da massa, surgem lideranças carismáticas que organizam movimento sociais com visão própria do pais e de seu futuro. Deixam de ser “povo-massa” e começam a ser cidadãos ativos e relativamente autônomos. Surgem sindicatos novos, movimentos dos sem terra, dos sem teto, de mulheres, de afrodescentes, de indígenas entre outros. Da articulação desses movimentos entre si nasce um “povo” concreto. Já não depende das elites. Elabora uma consciência própria, um projeto diferente para o pais, ensaia práticas de resistência e de transformação das relações sociais vigentes.
“Povo” portanto, nasce e é resultado da articulação dos movimentos e das comunidades ativas. Eele nunca acaba de nascer totalmente, porque depende da mobilização dos grupos sociais que buscam mais e mais participação e assim vão fazendo nascer um povo.
Esse é o fato novo no Brasil e na América Latina dos últimos decênios que culminou hoje com as novas democracias de cunho popular e republicano. Bem dizia um lider do novo partido”Podemos” na Espanha:”não foi o povo que produziu o levante, foi o levante que produziu o povo”.(Le Monde Diplomatique, janeiro 2015 p. 16).
Agora podemos falar com certo rigor conceptual: aqui há um “povo” emergente enquanto tem consciência, projeto próprio para o país e se organiza para implementá-lo.
“Povo” possui também uma dimensão axiológica: todos são chamados a ser povo: deixar de haver dominados e dominadores, elites e massas, mas cidadãos-atores de uma sociedade na qual todos podem participar.
Leonardo Boff é colunista do JBonline, teólogo e filósofo e escreveu E a Igreja se fez povo, Vozes 1991:”conceito de povo” p. 39-47.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Mt 2,1-12: Jesus é luz para todos - os Magos do Oriente

 [Ildo Bohn Gass]

Terça-feira, 30 de dezembro de 2014 - 10h35min

O relato da visita dos Magos do Oriente faz parte do Evangelho da Infância de Jesus segundo Mateus (Mt 1-2). Mais do que informar dados biográficos, essas narrativas querem fazer uma profunda reflexão teológica para compreender a vida de Jesus e servir de luz na caminhada das comunidades daquele tempo e ainda hoje. Aproximemo-nos ao texto em três momentos.
1. Jesus atualiza a memória profética
Numa perspectiva, percebemos como a comunidade de Mateus quer mostrar como em Jesus se cumpre a esperança de seu povo. Por isso, já situara sua origem humana (Mt 1,1-17) e divina (Mt 1,18-25), conforme tinha dito o profeta Isaías (Mt 1,22-23; Is 7,14). Em nosso relato, mais elementos vêm confirmar essa perspectiva da esperança profética.
estrela esperada, que sairia da linhagem do pai Jacó (Nm 24,17), é Jesus de Nazaré, descendente de Davi, outra estrela da estirpe de Jacó. Essa estrela é a verdadeira luz para todos os povos, é o “sol da justiça”, anunciado pelo profeta Malaquias (Ml 3,20). Davi é da tribo de Judá e Belém é sua aldeia de origem. Por isso, os autores deste relato fazem memória da esperança do profeta Miquéias (Mq 5,1-3), que não acreditava mais nas autoridades de Jerusalém, a capital, mas em um governante que viria desde a periferia, como Davi, quando era um pobre pastor de ovelhas antes de se tornar rei em Hebron e, depois, também em Jerusalém.
Outro aspecto dessa memória da esperança do povo é o fato de lembrar vários textos que anunciam a vinda do rei justo para todos os povos, enquanto do Oriente e do Ocidente eles viriam trazendo-lhe presentes (Sl 72,10-15; Is 49,23; 60,5-6). Os presentes anunciam que Jesus é rei (ouro) divino (incenso), que veio trazer libertação para muitos. Por isso, é uma ameaça para outros, que o matam (a mirra era usada nos sepultamentos – Jo 19,39-40)
2. A estrela do rei que vem da periferia
Em outra perspectiva, convém identificar as figuras de Herodes, dos sumos sacerdotes e dos escribas do povo.
Em 37 aC, Herodes Magno foi proclamado, por Roma, rei sobre toda a Palestina com o título de “rei sócio e amigo do povo romano”. Esse título nos mostra que Herodes representava, de fato, os interesses do imperador na região e cobrava os impostos para o império, reprimindo toda e qualquer resistência. De fato, era um poder dependente e subserviente aos interesses do império colonialista. Morreu no ano 4 aC.
Os sumos sacerdotes eram o grupo dos sacerdotes ricos e, junto com os escribas, representavam o poder religioso judaico. Os escribas, também conhecidos por legistas ou doutores da lei, eram os intérpretes das Escrituras. Isso lhes dava prestígio e influência em meio ao povo. Junto com os grandes sacerdotes e os anciãos (representantes dos bem situados economicamente), os escribas faziam parte do Sinédrio ou Grande Conselho. O Sinédrio era a autoridade máxima dos judeus e foi nele que se decidiu a morte de Jesus (Jo 11,45-54). Da mesma forma como Herodes, também os sumos sacerdotes, chefes do Sinédrio, eram poder dependente de Roma, uma vez que, no tempo de Jesus, eram nomeados pelos interventores romanos, os procuradores.
É importante que tenhamos clareza sobre isso, a fim de entender o que a comunidade de Mateus nos quis dizer em nosso texto. Não é por acaso que Herodes (poder político) e cidadãos de Jerusalém vissem seus privilégios ameaçados com o novo projeto de vida trazido por Jesus, o rei justo que nasce para todas as nações a partir de uma casa da periferia. É por isso que Herodes busca, através da mentira, enganar os magos a fim de colocar em prática seu plano perverso de matar o Messias (Mt 2,13). E também não é por acaso que grandes sacerdotes e escribas (autoridades religiosas) se aliem ao poder político na identificação do lugar onde devia nascer Jesus, pois percebiam que, há séculos, sua religião oficial deixara de brilhar como luz profética na defesa da vida, do amor e da liberdade.
Agora, Jesus é a estrela da justiça que brilha para a vida de todos os povos. Sua luz não é perceptível em Jerusalém, o centro do poder religioso judaico e dependente dos interesses romanos. Por isso, sua estrela não é visível aos magos. Sua luz vem da periferia, de Belém, que significa “casa do pão”. O encontro com o Deus Emanuel acontece lá onde está quem não tem vez nem voz nos centros de poder, acontece na periferia. E mais. É significativo que Jesus nasce na casa do pão. É que pão repartido é o coração de sua boa-nova. Cotidianamente, promove a partilha do pão ao redor da mesa ou em regiões desérticas. Não é por acaso que colocou o pedido pelo pão no centro dos assuntos preferências de suas conversas com o Pai. E nos pediu que os mesmos assuntos fossem também o conteúdo básico de nossa busca de intimidade com o Pai (Mt 6,9-13; Lc 11,2-4). Por fim, deixa-nos o gesto da partilha do pão como o maior sinal de sua presença entre nós (Mt 26,26-29).
3. Nos magos, os povos acolhem o messias
O evangelho segundo Mateus é o único a relatar a vinda dos sábios do Oriente. Aqui, oriente não é um lugar determinado, mas é uma referência ao lado em que nasce o sol, símbolo da luz e da vida, tal como o anjo que vem do nascente e anuncia a marca do Deus vivo em todos os seus servos (Ap 7,2-3). Nos magos, os povos acolhem o messias, que se manifesta a todas as nações.
A este texto do evangelho da infância, foram acrescentadas, pela tradição, inúmeras lendas. Um delas afirma que os magos teriam vindo da Pérsia, por ser uma cultura versada na astrologia. Outra fixa o número de magos. Seriam três. Esse número é deduzido da quantidade de presentes dados ao menino, como gesto de solidariedade para com a criança pobre que não nasce em berço de ouro. No entanto, o texto não afirma quantos eram os magos.
O texto também não diz que eles eram reis. Aliás, o rei era quem buscava matar a criança recém-nascida. As informações sobre os magos enquanto “reis”, com “nomes” e “cores” são inseguras. Alguns atribuem a São Leão Magno (papa de 440 a 461) o título de “reis” para os magos. Isso se deve não somente à influência dos cânticos de Is 60, mas também ao contexto de aliança entre a Igreja e os reis de Roma.
No século VII, eles teriam recebido “nomes” populares: Baltazar, Melchior e Gaspar. E, no século XV, lhes teriam sido atribuídas as “cores”: Melquior representaria as etnias brancas, Gaspar as amarelas e Baltazar as negras, a fim de simbolizar o conjunto da humanidade que acolhe e reconhece o Messias como Deus conosco e libertador de todas as formas de violência e de exclusão.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

UM CONSOLO ADEQUADO PARA À IGREJA


Rev. Padre Jorge Aquino
Amós 5: 18-24; I Tessalonicenses 4: 13-18; Mateus 25: 1-13

Introdução: Na leitura do Evangelho de hoje encontramos a parábola das dez virgens com uma grande lição sobre escatologia (doutrina das ultimas coisas). Nossa vida cotidiana depende de nossa crença escatológica. Quem espera que o noivo chegue nos próximos minutos, se prepara para o encontro. Quem acha que ele vai demorar, relaxa e perde o foco da própria vida.

Elucidação: Aqui Paulo está respondendo a uma série de questões que foram trazidas por Timóteo e feitas pelos tessalonicenses. Muito provavelmente, durante a ausência de Paulo alguém teria morrido e suscitado questões sobre o que ocorreria diante da eminente vinda Cristo. Os mortos ficariam para trás?

I. VENCE A IGNORÂNCIA (v. 13) “Acerca dos que dormem”
1. O ignorante é o agnouein, ou seja, o que nada sabe.
2. Sobre os que “dormem”, ou seja os koimôménôn. “dormir” é uma metáfora comum entre os pagãos e os judeus para a morte que foi absorvida pelos cristãos. A palavra não pretende dizer nada sobre a situação ou a condição (consciente ou não) de quem está morto
3. A resposta é dada usando o que aconteceu com o próprio Jesus: “se Jesus ressuscitou, ele trará, em sua companhia, os que dormem” (v. 14). As almas dos mortos, que segundo o mito bíblico, estão debaixo do altar de Deus (Ap 6:9) voltarão na companhia de Jesus.
4. Nem mesmo nós os vivos teremos esta precedência sobre os morto (v. 15).
Aplicação: A Igreja não deve se deixar envolver pelas crenças platônicas de que há uma diferença entre a alma e o corpo (que seria sua prisão) e que as almas dos mortos transmigrariam de volta em outras pessoas.
A vitória de Cristo sobre a morte é a vitória de cada um de nós, pessoalmente.

II. VENCE A TRISTEZA (v. 16) “O Senhor mesmo... descerá do céu”
1. Haverá um preparo para um desfile de vitória (v. 16) “Palavra de ordem, voz do arcanjo, trombeta e Deus”. A cena não é de um enterro, mas de um cortejo de vitória onde o comandante dá as ordens aos seus capitães e estes mandam soar a trombeta que faz o exército se movimentar em direção à vitória.
2. Os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro (v. 16)
Não há razão para tristeza diante da realidade da morte, pois ela já foi vencida pela ressurreição de Cristo (I Com 15: 54).
Aplicação: Quem está em Cristo já participa da nova vida que o Novo Ser (Cristo) veio nos trazer. Esta nova vida implica em uma nova história, um novo eon, no qual as realidades passadas são superadas. O paradoxo que este texto nos mostra é que embora o Reino já esteja entre nós, devemos sempre orar: “venha o teu Reino”.

III. VENCE A DESESPERANÇA (v. 17) “estaremos para sempre com o Senhor”
1. Os pagãos não tinham esperança (ekontes). Mas para os cristãos a “esperança” é uma realidade cotidiana. A ultima palavra é sempre dada por Deus, por isso podemos sempre ter esperança.
2. Nós os vivos seremos arrebatados junto com eles. Na visão paulina no mesmo momento em que ocorre a ressurreição dos mortos, ocorre, também o arrebatamento dos vivos. Um sinal de que não estamos tratando de duas realidades diferentes. Ambos, vivos e mortos, fazem parte no novo eon, do Reino, a esta realidade a Igreja chamamou de “comunhão os santos”.
3. Encontraremos o Senhor nos ares. Esta expressão parece nos reportar ao momento em que Jesus sobe aos céus e os anjos proclamam que ele virá da mesma forma que o vimos subir. Os “ares” são um símbolo desta realidade na qual Deus domina, em contraste com a terra, o espaço humano. Quem já encontrou o Senhor já está sob seu domínio.
4. Estaremos para sempre com o Senhor. Quando encontramos o Cristo, o Novo Ser passa a viver no novo estado de coisas, o novo eón, que foi trazido e inaugurado por Cristo.


Conclusão: Consolai-vos uns aos outros com estas palavras. A palavra parakaleite não quer dizer penas consolo, mas encorajamento e conforto. O nosso encontro com o Novo Ser, com Cristo, já nos proporcionou a entrada na nova história que chamamos de Reino de Deus. Mas o paradoxo é que, assim como somos simultaneamente santos e pecadores, o Reino é um Já e um Ainda-não. Seja como for, o sentimento que deve percorrer nossa mente é o de encorajamento porque a vitória está garantida. E esta vitória, não é apenas uma vitória pessoal, é uma vitória que mudará toda a realidade, inclusive a política, a econômica e a social. Ter compromisso com esse novo eón é ter compromisso com a transformação dos reinos deste mundo no Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso o novo eón, ou o Dia do Senhor, como diz o profeta Amós em 5:18, para alguns será dia de trevas, vez que no Reino de Deus a justiça corre como um rio perene (Amós 5: 24).

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A visita do anjo a Maria Surpresas de Deus

Lucas 1,26-38: A visita do anjo a Maria Surpresas de Deus [Mesters, Orofino]


Quarta-feira, 17 de dezembro de 2014 - 14h51min

Anunciação para Maria, aos olhos de Jesus Mafa.<br>Fonte: Jesus Mafa
Situando

1. O anúncio do anjo a Maria (Lc 1,26-38) vem depois do anúncio do anjo a Zacarias (Lc 1,5-25). Nos dois casos anuncia-se um nascimento. Vale a pena comparar os dois anúncios para perceber as semelhanças e as diferenças. Descrevendo a visita do anjo a Maria e a Isabel, Lucas evoca as visitas de Deus a várias mulheres estéreis do Antigo Testamento: Sara, mãe de Isaque (Gn 18,9-15), Ana, mãe de Samuel (I Sam 1,9-18), a mãe de Sansão (Jz 13,2-5). A todas elas o anjo tinha anunciado o nascimento de um filho com missão importante na realização do plano de Deus. E agora, ele faz o mesmo anúncio a Isabel, esposa de Zacarias, e a Maria. Maria não é estéril. Ela é virgem. No Antigo Testamento, o anjo de Deus, muitas vezes, é o próprio Deus.

2. A Palavra de Deus chega a Maria não por meio de um texto bíblico, mas através de uma experiência profunda de Deus, manifestada na visita do anjo. Foi graças à ruminação da Palavra de Deus da Bíblia que ela foi capaz de perceber a Palavra viva de Deus na visita do anjo.

Comentando

1. Lucas 1,26-27: A Palavra faz a sua entrada na vida
Lucas apresenta as pessoas e os lugares: uma virgem chamada Maria, prometida em casamento a um homem, chamado José, da casa de Davi. Nazaré, uma cidadezinha na Galileia. Galileia era periferia. O centro era a Judéia e Jerusalém. O anjo Gabriel é o enviado de Deus para esta moça virgem que morava na periferia. O nome Gabriel significa Deus é forte. O nome Maria significa amada de Javé ou Javé é o meu Senhor. A história da visita de Deus a Maria começa com a expressão “No sexto mês”. Trata-se do “sexto mês” da gravidez de Isabel, parenta de Maria, uma senhora já de idade, precisando de ajuda. A necessidade concreta de Isabel é o pano de fundo de todo este episódio. Encontra-se no começo (Lc 1,26) e no fim (Lc 1,36.39).
 
2. Lucas 1,28-29: A reação de Maria
Foi no Templo que o anjo apareceu a Zacarias. A Maria ele aparece na casa dela. A Palavra de Deus atinge Maria no ambiente da vida de cada dia. O anjo diz: “Alegra-te! Cheia de graça! O Senhor está contigo!” Palavras semelhantes já tinham sido ditas a Moisés (Ex 3,12), a Jeremias (Jr 1,8), a Gedeão (Jz 6,12), aRute (Rt 2,4) e a muitos outros. Elas abrem o horizonte para a missão que estas pessoas do Antigo Testamento deviam realizar a serviço do povo de Deus. Intrigada com a saudação, Maria procura saber o significado. Ela é realista, usa a cabeça. Quer entender. Não aceita qualquer aparição ou inspiração.

3. Lucas 1,30-33: A explicação do anjo
“Não tenha medo, Maria!” Esta é sempre a primeira saudação de Deus ao ser humano: não ter medo! Em seguida, o anjo recorda as grandes promessas do passado que vão ser realizadas através do filho que vai nascer de Maria. Este filho deve receber o nome “Jesus”. Ele será chamado Filho do Altíssimo e nele se realizará, finalmente, Reino de Deus prometido a Davi, que todos estavam esperando ansiosamente. Esta é a explicação que o anjo dá a Maria para que ela não fique assustada.

4. Lucas 1,34: Nova pergunta de Maria
Maria tem consciência da missão importante que está recebendo, mas ela permanece realista. Não se deixa embalar pela grandeza da oferta e olha a sua condição: “Como é que vai ser isto, se eu não conheço homem algum?” Ela analisa a oferta a partir dos critérios que nós, seres humanos, temos à nossa disposição. Pois, humanamente falando, não era possível que aquela oferta da Palavra de Deus se realizasse naquele momento.

5. Lucas 1,35-37: Nova explicação do anjo
O Espírito Santo, presente na Palavra de Deus desde o dia da Criação (Gênesis 1,2), consegue realizar coisas que parecem impossíveis. Por isso, o Santo que vai nascer de Maria será chamado Filho de Deus. Quando hoje a Palavra de Deus é acolhida pelos pobres sem estudo, algo novo acontece pela força do Espírito Santo! Algo tão novo e tão surpreendente como um filho nascer de uma virgem ou como um filho nascer de Isabel, uma senhora já de idade, da qual todo o mundo dizia que ela não podia ter neném! E o anjo acrescenta: “E olhe, Maria! Isabel, tua prima, já está no sexto mês!”

6. Lucas 1,38: A entrega de Maria
A resposta do anjo clareia tudo para Maria. Ela se entrega ao que Deus está pedindo: “Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua Palavra”. Maria usa para si o título de Serva, empregada do Senhor. O título vem de Isaías, que apresenta a missão do povo não como um privilégio, mas sim como um serviço aos outros povos (Is 42,1-9; 49,3-6). Mais tarde, Jesus, o filho que estava vim para ser servido, mas para servir!” (Mt 20,28). Aprendeu da Mãe!

7. Lucas 1,39: A forma que Maria encontra para servir
A Palavra de Deus chega e faz com que Maria saia de si para servir aos outros. Ela deixa o lugar onde estava e vai para a Judéia, a mais de quatro dias de viagem, para ajudar sua prima Isabel. Maria começa a servir e cumprir sua missão a favor do povo de Deus.

Alargando

1. Maria, modelo de comunidade

Lucas não fala muito sobre Maria, mas aquilo que fala tem grande profundidade. Quando fala de Maria, ele pensa nas comunidades. Apresenta Maria como modelo para a vida das comunidades. É na maneira de ela relacionar-se com a Palavra de Deus que Lucas vê a maneira mais correta para a comunidade relacionar-se com a Palavra de Deus: acolhê-la, encarná-la, vivê-la, aprofundá-la, ruminá-la, fazê-la nascer e crescer, deixar-se moldar por ela, mesmo quando não a entendemos ou quando ela nos faz sofrer. Esta é a visão que está por trás dos textos dos capítulos 1 e 2 do Evangelho de Lucas, que falam de Maria, a mãe de Jesus.

2. As profecias se realizam
Na descrição da visita do anjo Gabriel a Maria, são muitas as passagens do Antigo Testamento que são lembradas ou evocadas. O Antigo Testamento está dando o seu fruto em Jesus, o filho de Maria. É como se a flor finalmente desabrochasse e mostrasse toda a sua beleza e perfume. Eis algumas das evocações e lembranças:

a) “O Senhor está contigo”, como esteve com Moisés, Jeremias e tantos outros.
b) “A virgem dará à luz”, conforme anunciou o profeta Isaías (Is 7,14).
c) Jesus “ocupará o trono de Davi”, como foi prometido pelo profeta Natan (2 Sam 7,12s).
d) “O seu Reino não terá fim”, como foi prometido pelo profeta Daniel (Dn 7,14).
e) Ele será fruto da ação criadora do Espírito, como foi prometido por Isaías (Is 11,1-3).
f) Ele será chamado Filho de Deus, como foi prometido a Davi (2 Sam 7,14).
g) “A Deus nada é impossível”. Por isso nasceu Isaque e nascem João e Jesus (Gn 18,14).
 
Acesse também uma proposta litúrgica para este texto:
 
 Liturgia / Lucas 1,26-38: A visita do anjo a Maria Surpresas de Deus [Mesters, Orofino]


Fonte: Carlos Mesters, Mercedes Lopes| O avesso é o lado certo, A021, P. 31.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

João 1.6-8, 19-28: Testemunho e ação

 [Gottfried Brakemeier]

Quarta-feira, 10 de dezembro de 2014 - 15h31min

Coroa de advento feita por Daiane Marileia Baade<br>Fonte: Facebook | Daiane Marileia Baade
1. Introdução

A atuação de João Batista, de que fala o texto em pauta, tinha dado origem a esperanças messiânicas. Formara-se uma comunidade de seguidores, do que é testemunha o historiador Josefo, bem como um texto como o de Atos 19. l s. Seria ele, João, o Messias esperado, com cuja vinda seria inaugurado o reino de Deus? A pregação destemida, o batismo de arrependimento, o estilo profético desse homem, tudo parecia credenciá-lo como salvador do povo, sábio religioso, liderança carismática. Não havia o próprio Jesus se submetido ao batismo de João? Como se relacionam os dois personagens? É a questão em foco no trecho previsto para a prédica neste 3° Domingo do Advento. Quem é João Batista?

O evangelista João responde à sua maneira. Pelo que tudo indica, é conhecedor da tradição sinótica. Mas, como costuma fazer, funde a tradição com os seus propósitos teológicos específicos. Para o quarto evangelista, o Batista é por excelência testemunha. É este o enfoque absolutamente predominante, fazendo com que certos aspectos dos textos paralelos nos evangelhos sinóticos sejam ignorados. Falta a menção do juízo iminente na prédica de João, falta a referência a seu modo de vestir e alimentar-se, faltam outros detalhes. Temos neste trecho um belo exemplo de concentração joânica numa questão fundamental para a cristandade, ou seja: quem é de fato salvador?

2. Observações exegéticas

O trecho proposto é uma composição de partes distintas. Os vv. 6-8 representam uma inclusão, tanto formal quanto temática, no prólogo do quarto evangelho, que abrange os vv. 1-18. O bloco dos vv. 19-28 dá continuidade a estes versículos. Aliás, ao todo deveria ser acrescentado ainda o v. 15. Insere-se organicamente na temática geral. Apesar da localização diversa, as partes formam unia unidade:
* Vv. 6-8: João veio para dar testemunho da luz. Tem a tarefa de despertar fé. Mas ele mesmo não é a luz.
* V. 15: O testemunho de João tem por conteúdo o Verbo feito carne, em comparação com o qual ele, João, é absolutamente inferior.
* Vv. 19-28: João está sendo submetido a uma sabatina referente à sua identidade, e isto, por assim dizer, em duas etapas:

1. Vv. 19-23: Delegados dos sacerdotes e levitas de Jerusalém interrogam João quanto ao título por ele pretendido. A pergunta chave é: Quem és tu? (v. 19).

2. Vv. 24-28: Esses mesmos delegados — agora especificados como vindos da parte dos fariseus — interrogam João quanto à sua prática batismal. A pergunta chave é: Por que batizas? (v. 24).

Em todas estas partes o assunto é o mesmo, embora seja apresentado em diversas variantes: João não é o Cristo, respectivamente ele não é a luz. Isto é dito sobre ele (vv. 6-8) e por ele (vv. 15; 19-28). Depoimento semelhante teremos no bloco seguinte que compreende os vv. 29-34. João é a primeira pessoa a identificar Jesus como portador do Espírito Santo e Filho de Deus (vv. 33,34), bem como a conduzir discípulos a ele. Seu testemunho se resume nas palavras: Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (v. 29).

O interrogatório de João, narrado nos vv. 19-28, teria acontecido em Betânia, na outra banda do Jordão. A indicação do lugar parece atestar a historicidade do episódio. A pesquisa, porém, desconhece uma localidade com esse nome naquela região. Mesmo assim, não há razões para duvidar do fundamento histórico do texto. A questão messiânica quase que forçosamente se colocava a um vulto tão notável como João. Ele rejeitou não somente o título Cristo (v. 20), como também outra dignidade análoga, a exemplo de Elias ou do profeta escatológico (v. 21), que, segundo opinião corrente, seriam precursores do reino de Deus. A função de João se resume a ser voz que clama no deserto e chamado para endireitar o caminho do Senhor (v. 23). Significado semelhante tem o seu batismo: aponta para aquele do qual João não é digno de desatar a correia das sandálias (v. 27). Pelo que sabemos de outros textos, João de fato recusou dignidade messiânica (cf. Mt 11.2s.; etc.). Justamente por isto ocupa espaço tão importante na história da salvação. Vejamos algumas das implicações teológicas do texto.

3. Reflexões teológicas

Para o quarto evangelista a figura de João é interessante não só, nem em primeiro lugar, sob a perspectiva histórica. Ela o é, antes, em sentido querigmático: João é protótipo, exemplo, prefiguração da autêntica testemunha de Jesus. Considerando que o ser testemunha faz parte da vocação apostólica da Igreja e de todos os seus membros (cf. At 1.8; l Jo 1.1; etc.), João Batista se torna, neste sentido específico, modelo de existência cristã. Isto significa:

1. A testemunha não salva. Imporia resistir às tentações messiânicas que afetam particularmente as pessoas de sucesso religioso. Quem conseguiu constituir uma comunidade de fiéis sabe do perigo. Consiste em atribuir a si próprio a obra do Espírito Santo, colocar-se no lugar de Deus, considerar-se dono do saciado. Ora, a testemunha não é o Cristo! A rejeição de qualquer titulação respectiva por João é, por um lado, demonstração da devida modéstia. Deus resiste aos soberbos. Portanto, cuidado com pretensões descabidas. E, no entanto, não é somente humildade que se expressa na atitude de João. Ela documenta, acima de tudo, verdade: pode o ser humano salvar? Tal pretensão se desmascara como ilusão o mais tardar frente à morte. Ninguém pode substituir o Deus salvador que, em Cristo, se fez carne. Cristãos não salvam ninguém. Quem conta o número de almas que salvou, está blasfemando o nome do Senhor.

2. A testemunha, isto sim, encaminha as pessoas à salvação. Sabe onde consegui-la. Tem um endereço. Aponta para a luz, assim como a lua aponta para o sol. A humildade de João, que rejeita as glórias messiânicas, de modo algum significa autonegação. Também a lua brilha. Mas ela reflete a luz que recebeu. Está desonerada de produzir luz própria. Assim o ser humano está dispensado de produzir o divino por forças próprias. Como testemunhas podemos permanecer humanos. Isto não legitima o pecado, mas confere a liberdade para admiti-lo e para buscar perdão. Não temos necessidade de aparentar o que não somos. Temos dignidade, não obstante. Ela resulta do amor de Deus que vem resgatar sua criatura (cf. Jo 3.16).

3. Testemunho se dá por palavra e ação, melhor: por uma maneira de ser. A pregação de João, seu batismo, sua vida no deserto, tudo conflui em seu testemunho. Embora sejam escassas as informações que o quarto evangelho fornece sobre o modo de ser e viver de João, há que se considerar este horizonte. De qualquer maneira, seria errôneo restringir o testemunho a uma questão meramente verbal. O texto colateral de l Ts 5.16-24, contendo parênese, lembra dessa verdade. O testemunho inclui a vivência. O que se exige não é a perfeição. Esta não escapa do perigo de ser hipócrita. Importante mesmo é deixar claro o quanto a própria testemunha vive da fonte à qual remete as pessoas.

4. A salvação é obra de Deus, não das testemunhas. Não será esta uma posição por demais cômoda? Poderia desresponsabilizar a Igreja e a comunidade pelo mal que há no mundo. É forte o clamor na América Latina por construtores do reino de Deus, ou seja, por pessoas que se engajem em favor da paz e da justiça, motivadas pelo amor aos fracos e explorados. Ora, o texto não dispensa as testemunhas de sua responsabilidade social. Seria um grosseiro mal-entendido. Verdade é que não se deve confundir o reino de Deus com um projeto humano. Nisto o texto é categórico. Quem tentar implantar o divino neste mundo frustrar-se-á. Vai até mesmo tornar-se cruel e desumano. O ser humano não pode construir o reino de Deus nem salvar o mundo. Mesmo assim, não é pouco o que dele se espera. Resume-se naquele endireitar o caminho do qual fala o v. 23.

Também neste tocante João Batista coloca os padrões: ele chama o mundo ao arrependimento, à preparação da chegada do Reino, a uma radical faxina na casa particular e pública. Vamos colocar este nosso mundo em ordem para que o juízo de Deus não nos pegue de surpresa. É esta a tarefa social da testemunha. E vejamos lá, temos muita coisa a fazer aí.

5. João indica Jesus Cristo como fonte da salvação. No texto em apreço ainda não se lhe menciona o nome. Somente a partir do v. 29 a referência será explícita. Mas não há dúvida: aquele que vem após João, embora fosse anterior a ele (vv. 15,27), é Jesus de Nazaré. Por que ele? João vai dizer: Vinde e vede! (V. 39.) Ouçam o que tem a dizer. Observem seus gestos! Acompanhem sua trajetória biográfica. E vocês concordarão comigo, quando digo: Eis o cordeiro de Deus... (v. 29). Nele, em Jesus, o Verbo de Deus se faz ouvir, a luz do mundo vem brilhar, o amor de Deus vem socorrer. Em termos do texto de Isaías 61, previsto como leitura paralela, poderíamos dizer: sobre Jesus está o Espírito do Senhor. Assim o próprio Jesus entendeu sua missão, e a comunidade cristã o confirma. Mas João Batista antecede a todos. E o primeiro a celebrar o Advento de Deus na pessoa de Jesus de Nazaré. Ele antecipa o testemunho da comunidade. Reside nisto sua singular importância.

4. Pistas para a predica

Observação preliminar: Ainda que o v. 15 faça parte do bloco temático acerca de João Batista, não há nenhum imperativo que obrigasse a incluí-lo no texto da prédica. Seu conteúdo está contemplado pelo v. 27. Os textos laterais de Isaías e de l Tessalonicenses acrescentam importantes dimensões ao texto, como visto acima. Oferecem-se, portanto, como referências explicativas à prédica, conforme a necessidade.

1. Os evangelhos informam que Jesus sofreu tentação. Para João Batista vale a mesma coisa. Esta aqui é a história de sua tentação. Assim poderia iniciar a prédica. A tentação consiste em João se autopromover e se condecorar com um título honroso. Ele tem tudo para ser um Messias. Tem sucesso, uma comunidade que o aplaude, chama a atenção, inclusive das autoridades. João é uma celebridade, incômoda, é verdade, mas notável. Não obstante, ele rejeita os títulos e se contenta com o papel de uma voz que clama no deserto. Como testemunha da luz é refletor, só isto.

2. A tentação de João é também a nossa. Lutero diagnosticou bem ao dizer que todos gostaríamos de ser um pequeno Cristo por nós mesmos. Nada melhor do que a sensação de que nós salvamos outra gente. Nosso mundo está cheio de tais salvadores da pátria, de gurus, donos da verdade, médiuns, de supostas encarnações de divindades, de pessoas que se consideram um canal especial do Espírito Santo, gente que está acima do nível dos demais. Claro, poucos têm o atrevimento de se auto-intitular de Cristo. Mas muitos se comportam como se o fossem. No mercado religioso a procura excede a oferta. Eis aí a chance para os gênios religiosos, os cristos autopromovidos, os vendedores e cambistas do sagrado. Religião é um grande negócio. Feliz quem sabe explorá-lo. Está aí a fonte de muito dinheiro, ou pelo menos de gostosos aplausos.

3. João Batista parece ingênuo. Ele não aproveita a chance. Não quer honras para si. Coloca-se inteiramente a serviço daquele que vem após ele. Dele é testemunha e nada mais. Mas o que parece ser ingenuidade é na verdade sabedoria. Salvação não se compra. Não é produto humano. E quem como tal a vende, adulterou a mercadoria. A salvação tem Deus por origem. Qualquer tipo de apropriação humana fracassa. Importa saber distinguir entre a fonte, o reflexo e o plágio. Querer ser fonte de luz é arrogância humana. O plágio é crime, abominável sedução, charlatanice. Ser espelho, reflexo — é isto o que corresponde à vocação cristã.

4. Significa isto que toda ajuda humana seja vã e inútil? Nada mais errado do que isto. A testemunha deve educar — assim o fez Jesus. A testemunha deve curar — seguindo o exemplo do mestre. A testemunha deve acusar o pecado — assim como o fez o próprio João Batista, pelo que, aliás, sofreu o martírio (cf. Mc 6.14-29). A ação humana, motivada pelo amor, é fundamental para o bem-estar, a paz, a justiça na sociedade. Mas esta ação não pode criar o perfeito. Não pode produzir sentido nem de fato superar o mal. Só Deus pode iluminar as trevas, só ele perdoar pecados, só ele ressuscitar mortos. O amor das pessoas é essencial, indispensável, de extremo valor. Mas não cria o reino de Deus. Quando autêntico, será reflexo do amor de Deus, remetendo para ele. Os pais devem amar seus filhos, e simultaneamente dizer que só Deus é capaz de amá-los assim como importa que sejam amados. Existe um espaço na vida, nos indivíduos e na sociedade que somente Deus pode preencher. Nós podemos e devemos preparar o caminho do Senhor. Mas forçar a sua vinda, isto ultrapassa a capacidade humana.

5. O Advento diz que Deus veio, vem e virá. Existe luz neste mundo, sim. Nem tudo é escuridão, vaidade, absurdez. Não dependemos de nosso esforço e dos fracos efeitos positivos que produz. Há por demais gente que não mais acredita em salvação, ou que a busca em substitutivos dúbios e em pessoas que, à dessemelhança de João, não se inibem de preconizar-se a si próprios como Cristos. Função da comunidade cristã é testemunhar o amor de Deus que está em Cristo Jesus. Fica a pergunta: como cumprir devidamente essa nobre tarefa? O exemplo de João Batista fornece valiosa, sim, imprescindível inspiração.

É claro que a prédica pode seguir outra estrutura e usar outros elementos. O que apresentamos não passa de sugestão.

5. Subsídios litúrgicos

Confissão dos pecados: Senhor, estamos aí para confessar nossas dívidas perante ti e nossos semelhantes. Temos sido falhos no testemunho da fé. Nossos olhos estavam por demais fechados para os sinais de tua graça, nossos ouvidos por demais surdos para a tua voz, nosso egoísmo tem atrofiado o amor a nossos semelhantes. Nossa casa não está suficientemente preparada para te acolher. Queiras perdoar-nos a negligência e dar-nos nova chance. Não adies teu Advento por causa de nosso despreparo. Tem compaixão de nós, Senhor!

Oração de coleta: Senhor, por demais vezes o mundo ao nosso redor nos inspira medo. É a violência, são as incertezas, as perspectivas sombrias quanto ao futuro que nos angustiam. Às vezes somos atingidos por golpes, frustrações, contratempos. De uma ou de outra forma todos fazemos a experiência do mal, da ameaça, das trevas. O teu Advento vem trazer luz a esta realidade. Tu nos mostras o caminho, reacendes a chama da esperança, dás novas energias. Nós te agradecemos por tua vinda. Vens para socorrer-nos e refazer a nossa vida. Mesmo que a nossa casa seja um tanto desarrumada, sê bem-vindo, Senhor. Vem e toma morada em nós. Amém.

Intercessão: Senhor! Tu nos reservaste a missão de sermos tuas testemunhas. Dá-nos coragem para cumprir este mandato. Por que falamos tão pouco da nossa fé? Às vezes temos até vergonha de confessar que somos cristãos. Nós te rogamos pela IECLB, por nossas comunidades, por todos os seus membros e por todas as igrejas cristãs. Dá-lhes o espírito missionário que estava em Jesus e que despertou fé nas pessoas. Dá que testemunhemos teu amor pela ação diaconal. transmitindo a outros, principalmente aos necessitados, o amor que de ti temos recebido. Dá-nos olhos capazes de perceber miséria e angústia, ouvidos atentos para ouvir gritos de socorro, mãos ativas para mobilizar ajuda. Tu vens como luz a este mundo. Rogamos-te que multipliques esta luz através das tuas testemunhas. Faze recuar as trevas que se manifestam em ódio, destruição, cinismo, crime. Senhor, livra-nos do mal. Dá às pessoas uma razão lúcida, voltada para o bem-estar, a paz e a justiça. Pedimos isto especialmente para quem exerce liderança em nosso país e em suas instituições. Assiste quem está abatido, doente, desesperado. Cura as nossas enfermidades. Senhor. Atende as nossas preces que formulamos assim como teu Filho no-las ensinou:
Pai nosso...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Marcos 1,1-8: Uma voz clama no deserto - Fé na ousadia de Deus!


Por Odete Adriano - CEBI Centro de Estudos Bíblicos

Quinta-feira, 4 de dezembro de 2014 - 14h00min


Esta reflexão é sobre o segundo domingo do Advento. Advento é tempo de reflexão diante do plano de Deus para a humanidade. É tempo de refletir como estamos orientando nossas vidas em relação ao propósito de Deus. Advento também é vinda, chegada. Ele vem. Jesus vem!

É um período especial, pois antecede o Natal, e traz nada menos que três desafios à cristandade. Esse período (1) quer nos lembrar do Advento histórico, passado. (2) Quer nos lembrar do Senhor que quer ser, hoje, nosso hóspede, portanto, o aspecto presente. (3) Finalmente, quer nos remeter ao futuro: o aspecto escatológico do mesmo.

O Advento é época de recuperar os grandes feitos de Deus. Eles são fundamentais para a nossa fé cristã e orientadores para a nossa convivência na comunidade e no mundo, em testemunho e serviço. Recuperar os fatos, no Advento, significa, conforme Isaías, novo fascínio, força e vigor para superar nossos cansaços, desesperanças, desânimo, vontade de desistir e cultivar nossa fé - esperança no Senhor. Advento é esperança na renovação de todas as coisas, na libertação das nossas misérias, pecados, fraquezas. É esperança que nos forma na paciência diante das dificuldades e tribulações da vida, diante de tantas coisas que afligem nossa alma e ferem nosso corpo.

Advento é, por isso, época de não só pensar em doces e presentes, mas, acima de tudo, é convite para olhar em direção ao que realmente importa, ou seja, a oferta da vida com esperança, em Cristo Jesus. É tempo de encontrar o novo.

O "evangelho" de Jesus não vem dos palácios

Os primeiros versos do Evangelho segundo Marcos retomam a profecia do Antigo Testamento e a conduzem ao Novo, ao evento do Espírito. O Espírito perfaz o novo! Marcos ressalta que Jesus Cristo, o Filho de Deus, é a Boa Nova da salvação para a humanidade. Como o mensageiro antigo (Isaías 52,7), João Batista proclama o alegre anúncio, que culmina em Jesus (Marcos 1,14-15) e ressoa nas comunidades cristãs como apelo a anunciar a mensagem de libertação no mundo inteiro (Marcos 13,10; 14,9).

Sabe-se que, para o evangelista, as palavras e ações de Jesus são "evangelho". "Evangelho" é uma palavra que era utilizada pelas autoridades para anunciar as suas ações. Contudo, para o evangelista Marcos, o "evangelho" de Jesus não vem dos palácios, mas da periferia de Nazaré (W. Marxen). O evangelho é alegria, não é imposto, como o evangelho imperial. Aqui nos é apresentado Jesus Cristo como "Filho de Deus", uma expressão que é central para o Evangelho segundo Marcos (cf. Marcos 1,11; 15,39).

Em seguida, Marcos 1,2-8 apresenta o precursor, João Batista. Jesus está na linha da profecia! João Batista é o profeta anunciado em Isaías. Restaura Israel a partir do deserto, como Moisés o fez com o povo que saiu do Egito, como tinha sido a prática de Elias no Horebe. João Batista, o profeta, tem seu foco no deserto. Para a história de Israel, o deserto é símbolo de vida, de resistência, vida restaurada, nova.

A profecia de João Batista apela à conversão, ao arrependimento. Isso é antiga tradição profética. O arrependimento é o eixo da renovação. 

Fé na renovada ousadia de Deus e olhos fixos no futuro

O povo de Deus sempre teve os olhos fixos no futuro, com esperança na vinda definitiva do Senhor (Isaías). Marcos nos chama a olhar à nossa volta e enxergar dentro de nossa história a vinda de Deus: João é o novo Elias (1 Reis 1,8), isto é, a profecia que volta a ser proclamada, o povo se reúne e se organiza para recomeçar como nos tempos do "deserto", enquanto os poderosos se abalam por se sentirem desmascarados (Mateus 3,7). Em Jesus de Nazaré, é Deus mesmo quem opera a restauração das pessoas.

Assim como se deu com Elias, João foi perseguido e morto covardemente, mas a palavra ressurge em Jesus (Marcos 1,14-15; 6,16). Também Jesus foi perseguido e assassinado, mas a caminhada da Palavra prossegue com seus discípulos e discípulas.

Ouvir de Elias, de João, de Jesus... é ouvir falar da renovada ousadia de Deus, a ousadia da liberdade, que não aceita calar-se nunca, nem teme os poderosos do mundo. Sempre de novo a Palavra ressurge para anunciar que são possíveis "novos céus e nova terra" (2 Pedro 3,13; Marcos 1,9-13; 9,2-13). A Palavra volta a levantar-se para denunciar os obstáculos que se antepõem ao propósito de Deus e proclamar que só há uma maneira de viver nessa nova realidade: "endireitar" os caminhos, reconhecer os erros pessoais e coletivos, refazer as relações pelo perdão, a igualdade e a partilha (Lucas 3,10-14). Aí, sim, o "deserto" se transforma em larga estrada, em jardim do Senhor.

O deserto era o lugar onde frequentemente se refugiava quem se sentia à margem do sistema e se punha na oposição. Lá estavam os essênios, pessoas que romperam com o templo e se consideravam vanguarda do novo povo. Para lá se dirigia quem se proclamava profeta ou messias e pretendia organizar a resistência popular. Por lá andavam guerrilheiros (sicários, zelotas) e bandidos. O movimento de João é de protesto e resistência, por isso foi preso e morto. Herodes o temia.

Batismos e rituais de purificações eram práticas comuns no ambiente dos fariseus e dos essênios. No movimento de João não são os sacrifícios que purificam do pecado, mas a confissão e o arrependimento, a mudança de vida. O povo não peregrina em direção ao templo, mas sai das cidades, como num êxodo, em direção ao deserto. É como se fosse preciso sair de novo do Egito, "a casa da servidão". E, pelo Jordão, entrar na Terra Prometida. Sob a expressão "remissão dos pecados" está escondida a antiga esperança da "remissão das dívidas" prevista para o Ano do Jubileu (Levítico 25). O novo tempo anunciado por João é a possibilidade, com Jesus, de restauração radical da convivência do povo em sociedade, segundo os ideais da igualdade e da justiça. Para isso é que se prevê a "imersão" (batismo) no Espírito Santo. Será como passar pelo fogo (Mateus 3,11; Malaquias 3,2) que purifica e destrói, para que algo novo possa surgir. Essa novidade era esperada desde o final do exílio na Babilônia e é dela que falavam profetas e profetisas no grupo de discípulos de Isaías (Is 40-66).

Deus sabe o caminho que devemos andar

João Batista, o precursor, propõe a conversão como meio para preparar o caminho do Senhor e acelerar a chegada de um mundo novo de justiça. Deus caminha pelo deserto da história, ensinando-nos a endireitar as veredas através de gestos solidários de amor e paz.

Dietrich Bonhoeffer dizia: "Eu não entendo os Teus caminhos, Senhor. Mas Tu sabes os caminhos que devo andar!" E é verdade! Deus sabe o caminho que devemos andar. Sabe, quanto mais procuro vivenciar e entender as coisas que Deus quer de mim, mais me surpreende o quanto Deus vem ao meu, ao nosso encontro nas áreas mais essenciais e carentes da vida: "significado, pertencimento, saúde, liberdade e comunidade". É que Deus - que é um Deus de amor e, consequentemente, de salvação - vem ao nosso encontro nas áreas mais necessitadas da existência humana e comunitária.

Por isso, "Ficai atentos, preparem-se". Ficai Atentos! A Esperança não pode esmorecer, mas resistir. Esperança Teimosa! Nascida do discernimento. Construída mesmo no tempo de sofrimento e esmorecimento! O tempo que vivemos é tempo de resistir pela solidariedade ao egoísmo e ao individualismo que nos consomem. Ser sensível é ser humano! Olhar o mundo sem indiferença. Com compaixão e afeto que movam à transformação! Vivamos intensamente este Tempo do Advento! Pois o Advento nos ensina: Não canse de esperar, o que esperamos vai chegar!

terça-feira, 4 de novembro de 2014

PROJETO DO CENTENÁRIO ANGLICANO

Igreja de Todos os Santos 
(All Saints´ Church)
Organizada em 18/08/1917
Fones: (13) 3237-4327 / (13) 99162-6721
Praça Washington, 92 - José Menino, Santos/SP
Novembro/2014
www.igrejaanglicana.net
Programa "Mar de Esperança", Canal 11 da Net
email: santoschaplain@gmail.com


Projeto do Centenário da Igreja Anglicana de Santos

Arquiteto Alex Ferreira - (13) 981280698 | arquiteto.asf@gmail.com

Orçamento: R$ 2 milhões
Empresários e pessoas interessadas em contribuir - Contato: Reverendo Leandro Campos - (13) 3237-4327 | santoschaplain@gmail.com










FAÇA AGORA A SUA CONTRIBUIÇÃO:

Banco ITAU
Número do Banco: 341
Agência: 0021
Conta Corrente: 55188-2
Igreja Paróquia Anglicana de Santos
All Saint´s Church
CNPJ – 17.764.094/0001-78

Identifique o depósito: "Centenário"

INÍCIO: 01º DE NOVEMBRO DE 2014
TÉRMINO: 21 DE ABRIL DE 2018

Faltam 100% para 2 milhões!

TOTAL DE OBRAS CONCLUÍDA: 0%